Spleen e charutos

julho 18, 2009

Parecia uma flor de tão machucado

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:42 pm

Quando saí de casa, determinado a caminhar por conta própria, acenei para a fome do terceiro andar de um apartamento vazio

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Antes de assistir “Garapa”, o documentário de José Padilha que estreou esta semana na programação do Cine Cult, eu julgava que possuía alguma intimidade com a fome. A velha é popular, todo mundo já ouviu falar dela, mas a proximidade quase escatológica conquistada pelas lentes do cineasta trouxe seu rosto cheio de feridas pra perto da gente.

De acordo com os dados da produtora Zazen, responsável pelo filme, mais de 920 milhões de pessoas sofrem de fome crônica no mundo. O impacto desses números depende da nossa compreensão do fenômeno. Geralmente, os meios de comunicação discutem a questão a partir de uma perspectiva macroscópica, debatendo as causas ambientais, geográficas, econômicas e políticas da fome. Embora este debate seja fundamental, continuamos, no entanto, sem saber como é a vida das pessoas que passam fome. É justamente nessa esquina, andrajos e fedentina, que reside a força do trabalho de Padilha. A fome para além de qualquer abstração, mastigando a carne do pobre.

De acordo com Marcela Bourseau, que assina a fotografia do documentário, o desconforto do expectador na cadeira do cinema não pode ser comparado ao dilema ético da equipe envolvida nas filmagens.

“A maior dificuldade foi filmar sem poder fazer absolutamente nada diante de uma degradação humana absurda. Eu me lembro de um momento em que a Rosa queria amamentar e não conseguia, pois não tinha leite. A expressão dela, de total impotência, acabou comigo. Eu estava com uma filha de dois anos em casa, cheia de saúde, de comida, de tudo do bom e do melhor. Foi duro ver crianças bebendo água com açúcar, sem roupas, sem educação, cheias de perebas e zique-ziras das mais diversas… Eu me lembro do bebezinho da Robertina com o pé que parecia uma flor de tão machucado. Surgiu uma ferida que não cicatrizava nunca. Ele não podia coçar, então chorava de agonia. O bebê tinha dois meses; ela, onze filhos. Confesso que rolou um desespero”.

Corta pro meu umbigo. Quando saí de casa, determinado a caminhar por conta própria, acenei para a fome do terceiro andar de um apartamento vazio. Eu acreditava que minha aventura – desertor da classe média, afogando o passado de leitinho com pêra numa garrafa de vodka vagabunda – rasgaria os panos da metáfora e deixaria os versos de Jorge du Peixe pelados no meio da sala. “Garapa” me provou que eu estava enganado. A fome tem mesmo uma saúde de ferro.

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2 Comentários »

  1. Não sei se a fome tem saúde de ferro, mas acredito que a “garapa de migalhas” com que a mãe alimenta seus filhos tem a bênção do criador para imunizar as crianças das enfermidades e contaminações que estas migalhas carregam no seu habitat

    Comentário por Luiz Antônio — julho 18, 2009 @ 1:56 pm

  2. Adorei esse texto…

    Comentário por Pollyana — julho 29, 2009 @ 12:40 pm


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