Spleen e charutos

julho 10, 2009

Derrubaram uma casa na minha rua

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:45 pm

O problema é que as roupas daquele tempo não nos cabem mais. Nós crescemos, e as imundícies filtrados por nossos corações ganharam nomes feios

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

A semana passada, derrubaram uma casa na minha rua. O trator trabalhou dias inteiros, determinado como animal no cio. Havia algo de familiar naquela construção decadente, algo que despertava uma simpatia misteriosa, semelhante ao sentimento que nos obriga a cansar as pernas e ceder nosso lugar no ônibus a um idoso, algo que foi arruinado pra sempre.

Os velhos carregam mais do que as marcas abertas pelas picaretas do tempo. A cada golpe, uma ferida em nossa própria memória, retratos da infância extraviados num caminhão de mudanças que nunca mais iremos encontrar.

Quando minha avó chegava lá em casa, reunia os netos e contava histórias do tempo em que todos usavam fraldas. “Eu criei esses quatro meninos”, dizia cheia de um orgulho sem propósito. A julgar pela careta de minha mãe, haviam controvérsias, mas o fato é que Dona Marina se esticava pra nos alcançar como se olhasse pra baixo e nos tomava nos braços com tanto carinho que não deixava dúvidas. Contrariando qualquer evidência, nós já havíamos sido bonitos e inocentes como os recém nascidos de olhos esbugalhados, ainda assustados com o barulho do mundo aqui fora.

É curioso imaginar que antes de tanta fome, de tanta vontade, antes de conspirarmos pela coroa, antes de cobiçarmos a mulher do vizinho, ficávamos satisfeitos com as tetas cheias de leite de nossas mães. O problema é que as roupas daquele tempo não nos cabem mais. Nós crescemos, e as imundícies filtrados por nossos corações ganharam nomes feios. Entupimos nossas veias com desejos, colesterol e dinheiro.

Vestígio cansado de tanta inquietação, tecido desbotado, maltratado pelo uso, imagino a velhice como um calçado confortável, leito do tumulto que açoita o homem desde que ele aprende a se equilibrar sozinho sobre as próprias pernas. Mais tenso do que os músculos do trapezista, o coitado finalmente abandona o peso do corpo e flutua de olhos fechados no espaço.

A semana passada, derrubaram uma casa na minha rua. Majestosa, ela caiu como todos os déspotas da história, como todos os lacaios aduladores. Um estrondo magnífico antes da poeira acalmar num silêncio de quem está dormindo.

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