Spleen e charutos

junho 25, 2009

Mundo grande

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 11:59 pm

Nossas aspirações se justificam quando adquirem a medida exata da vocação que as inspiram

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Deus me fez um cara fraco. Quem me encontra nas bodegas, uma barriga grande como o mundo, não adivinha o menino magro, quase sem recheio, no qual eu me reconhecia há uns pares de anos. Pele e osso como eu, só meu amigo Silas, tão franzino que a gente não sabia como seus ombros suportavam o peso daquele sonho. Ele alisava as cordas do violão, arrancando gemidos, e jurava que um dia viveria de música. Ninguém duvidava, mas parecia tudo tão distante…

A semana passada, Silas visitou Aracaju. Graduado em História e Salvador, seu sonho feliz de cidade, o magrelo voltou pra terrinha doido pra se amostrar. Foi por intermédio vaidoso deste escriba, o único problema da imprensa local – diplomada e incapaz de empregar corretamente uma vírgula – que Silas conversou com Paulo Lobo e agendou um show no próximo dia dez, no espaço privilegiado do Viva Ará Café. Ele ainda não sabe, mas encontrá-lo no meio da tarde, experimentando um instrumento fabricado por Nino Karva enquanto acertava os detalhes de uma apresentação, me ajudou a aquietar um rebanho de angústias. Naquela hora eu percebi que nossas aspirações se justificam quando adquirem a medida exata da vocação que as inspiram.

Sempre desconfiei de que levava jeito para a escrita. Observações de terceiros transformaram dúvida em convicção. Quando leio o primeiro parágrafo de Moby Dick, no entanto, me pergunto, assombrado, como a combinação de algumas palavras pode produzir tamanha magia. O mesmo espanto está guardado na melodia de “Sílaba muda”, uma das seis faixas presentes no EP “Em transe”, primeiro trabalho de Silas Giron, gravado após a conquista do IV Festival Universitário de Música da Bahia (Unifest), no ano passado. Se expressando sempre na condicional, Silas realiza uma verdadeira declaração de amor, comovente e contida como imaginamos os sentimentos dos poetas.

Para alimentar a minha prosa insossa, só tenho os acidentes escondidos entre a minha casa e a redação do Jornal do Dia. Silas, ao contrário, procurou a Praia do Buracão, o carnaval da Bahia, correndo desembestado como um bruguelo no meio da feira. Ao que parece, contudo, ainda não se deu por satisfeito. Durante nossa conversa, ele deixou transparecer um desejo de cair ainda mais pro sul, até encontrar o centro cultural do país, como os doces bárbaros que sempre fizeram a sua cabeça. Quem ouve seu disco com um pouco de atenção não tem nenhuma dúvida. O mundo é grande e o rapaz faria bem.

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