Spleen e charutos

junho 20, 2009

Vadiando na Tobias Barreto

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:34 am

“Vadiagem, em Aracaju, é ocupação para obstinados. Experimente esticar as pernas ao acaso, como aconselham Baudelaire e João do Rio, e a hostilidade do passeio morderá a planta de seus pés. Calçadas estreitas, acidentadas, irregulares. Nenhuma sombra de árvore no caminho. Nas grandes cidades, amigas dos automóveis, restaram as praças como refúgio dos andarilhos”.

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Até agora nenhum amigo observou, mas quando eu me acomodo na calçada do Café Casual e encaro de longe as feições da Praça Tobias Barreto, abandono pelo menos uns quinze anos no gesto. Viro menino. Desrespeito os muros do Colégio Nobel e dedico o resto de meu dia a desfalcar o acervo da Epiphânio Dória. Depois me sento no canteiro da avenida e, como um gatuno ansioso para esbanjar com as putas, viro as páginas do livro ali mesmo, satisfeito com a erudição nas entrelinhas de minha delinqüência.

Naquele tempo não existia tanto cimento. A gente enfiava o tênis da escola na terra escura, as meias quase tão sujas quanto nosso vocabulário. Quando o zelador se aproximava, cioso de suas obrigações, na tentativa de preservar os últimos peixes do aquário, só não era chamado de bonito. Ali, tudo nos pertencia, e não havia fi do cabrunco que demovesse a convicção daquela posse, natural como o ar em nossos pulmões.

Hoje, graças a uma parceria com a Petrobras, a Tobias Barreto é uma das praças mais bem conservadas da cidade. Apesar disso, a despeito da vizinhança com a Secretaria de Segurança Pública, já foi melhor freqüentada. Em minha época, a malandragem que imperava era como um exercício das próprias faculdades. Corria-se para dar vida às pernas, jamais para fugir da polícia.

Fazendo ouvidos moucos para os apelos da nostalgia, é preciso reconhecer, no entanto, a alegria interiorana que se desprende das barracas de comidas típicas na feirinha dos domingos, quando matronas gordas despencam da Igreja São José, após a missa, e temperam os eflúvios de milho cozido com a lavanda encarcada nos vestidos. Foi numa dessas ocasiões que me chamaram atenção para as inclinações etílicas do patrono empedernido no meio da praça. Impedido de acompanhar um espetáculo de rua pelos penteados extravagantes dos universitários, um gaiato escalou o pedestal da estátua e, como se abancasse na mesa de uma bodega, arranjou espaço para uma garrafa de cerveja. Foi lindo!

Pode ser que, no futuro, um cronista aborrecido com suas próprias sarnas mire a Tobias Barreto e chore de saudade por tudo o que agora repudio. Nada mais compreensivo. Desprezadas pelo fastio cotidiano, as paisagens urbanas são generosas. Acolhem com a mesma resignação o afago e o tabefe que lhe devem.

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1 Comentário »

  1. “Se um homem escreve bem só quando está bêbado, dir-lhe-ei: embebede-se. E se ele me disser que o seu fígado sofre com isso respondo: o que é o seu fígado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive, e os poemas que escrever vivem sem enquanto.” [Bernardo Soares – Livro do Desassossego]

    Comentário por Rita Brasileiro — junho 25, 2009 @ 11:14 pm


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