Spleen e charutos

junho 12, 2009

Vadiando na Olímpio Campos

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:53 pm

Quando eu resolvi morar no Centro, a dez minutos da redação do Jornal do Dia, ergui a mão para a estátua de Olímpio Campos, mas não fui atendido. Chegamos atrasados, eu e o poeta sufocado pelo meu sovaco. Os hippies já haviam tomado conta da sombra gótica da Catedral, e cercado um latifúndio com o sortilégio dos artesanatos

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Vadiagem, em Aracaju, é ocupação para obstinados. Experimente esticar as pernas ao acaso, como aconselham Baudelaire e João do Rio, e a hostilidade do passeio morderá a planta de seus pés. Calçadas estreitas, acidentadas, irregulares. Nenhuma sombra de árvore no caminho. Nas grandes cidades, amigas dos automóveis, restaram as praças como refúgio dos andarilhos.

Quando eu resolvi morar no Centro, a dez minutos da redação do Jornal do Dia, ergui a mão para a estátua de Olímpio Campos, mas não fui atendido. Chegamos atrasados, eu e o poeta sufocado pelo meu sovaco. Os hippies já haviam tomado conta da sombra gótica da Catedral, e cercado um latifúndio com o sortilégio dos artesanatos. Pulseirinhas de couro, brincos de arame polido, hieróglifos marcados na carne dos mais corajosos, além de paisagens pintadas rapidamente, num estalar de dedos, na superfície lisa dos azulejos. Tudo pelo preço de um baseado.

Sob o carinho idoso das árvores, todos os bancos quebrados. Desde as ruínas do Cacique Chá, até a extremidade oposta, nenhuma possibilidade de descanso sem o auxílio de algumas moedas. A sorte é o grande número de botecos. São pelo menos quatro, somente no interior da praça. No melhor deles, o único estabelecimento comercial que nunca fecha as portas em nossa cidade beata, um trailer escorado numa parede de engradados, bebe-se o quanto quiser, a qualquer hora do dia ou da madrugada, por um preço justo. A fauna é diversa. Além dos ratos e dos morcegos, as demais criaturas da noite. Putas, bêbados, artistas e travecos. Quem duvida pode consultar o cantor Deilson Pessoa, o produtor cultural Roberto Nunes, ou o artista plástico Anderson Camilo. Eles não devem negar os momentos desfrutados no sujinho.

Se os desígnios misteriosos que regem o universo assim desejarem, um passeio na Olímpio Campos pode render uma espiada pelas frestas abertas na couraça do insondável. É lá que uma senhora gorda, o último de nossos tipos urbanos, percorre o mapa riscado na palma das mulheres e lhes receita banhos perfumados para prender os maridos. A clientela é vasta, e se não proporciona o luxo da corte (a cartomante jura que descende de uma família nobre), tem sido suficiente para livrar a duquesa da indigência.

Eu ainda poderia mencionar a feira que emporcalha a vista de quem passa, e a Galeria de Arte Álvaro Santos. Mas a sujeira abandonada pela primeira é evidente, não carece de comentários, e na segunda eu nunca botei os pés, apesar de reiteradas tentativas. Vai ver que o soldado da Guarda Municipal que realiza a segurança do prédio não acredita que arte seja coisa de pedestres.

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7 Comentários »

  1. Ali, bebe-se sem frescuras do ar condicionado e é um local estratégico quando se quer falar com Rian Santos, que despede-se da companheira com um ” estou ali na esquina”.
    Para ser perfeito só falta a macaxeira com suas acompanhantes do final de noite: frango assado, bisteca ou carne ao molho.
    Lembranças que levarei de Aracaju, outras se perderão facilmente no hall vazio do aeroporto local.

    Roberto Nunes

    Comentário por Roberto Nunes — junho 12, 2009 @ 2:00 pm

  2. Existe uma forte tendência em fazermos o ensaio fotográfico para o disco nesse adorável local.

    Comentário por Rick Maia (Mamutes) — junho 12, 2009 @ 2:42 pm

  3. queria beber qq dia na praça. qnd eu me livrar do meu demonio aqui lhe chamo pra gente tomar uma e conversar sobre literatura e vida alheia.

    :*

    Comentário por Débora — junho 12, 2009 @ 3:09 pm

  4. Mais realidade, impossível. Parabéns!!!

    Comentário por Cândida Oliveira — junho 16, 2009 @ 1:45 pm

  5. Acho que já bebi nesse bar…

    Comentário por Gusmão — junho 17, 2009 @ 7:48 pm

  6. É, meu caro Calango!
    Benditas madrugadas que se tornavam em manhãs, com o sol nos queimando a cara, nos obrigando a fechar os olhos caídos de sono e cachaça! Isso nos idos de 2003! Era a verdadeira glória sair do sujinho por volta das sete da manhã, quando passavam os primeiros ônibus lotados de pessoas indo ao trabalho! O corpo e a alma embriagados de vida, amor e cachaça!

    Comentário por Rita Brasileiro — junho 19, 2009 @ 8:55 am

  7. Caro amigo letrado e bem verdade,pesquisa antropologica em um canpo tão comsistente,só na catedral.vc só esqueceu citar que eis cliente dos renomados estabelicimentos,porque e na esqiina da tua casa.ai sua senhora esposa permite.podemos formar um grupo dos antropologos noturnos da catedral.para nosso patrono da turma gostaria de indicar o Fabio Sanpaio,na diretoria João valdenio,para tesoureiro Marcos vieira,e voçê caro amigo serà o coletor de materia prima noite a dentro Abraço Anderson Camilo

    Comentário por Anderson Camilo — setembro 1, 2009 @ 3:04 pm


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