Spleen e charutos

junho 5, 2009

Presente de grego

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:53 pm

Quando meu pai me tomou nos braços pela primeira vez, há exatos vinte e nove anos, eu chorei muito e ele me ergueu bem alto, como quem ostentasse um troféu (…). De bar em bar, acabamos nos tornando amigos

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Em seis de junho de 1980 meu pai completou vinte e sete anos. Naquele dia, minha mãe chegou em casa com uma trouxa de tecido nos braços e, com muito cuidado, entregou o balaio ao aniversariante. Era o seu primeiro filho homem.

No início, eu me limitava a apalpar o mundo com olhos curiosos, estranho a tudo que não cheirasse a colo materno. Depois viriam os dentes, grunhidos ansiosos, doidos pra rebentar em verbo, alguma inquietação e, se Deus permitir, um bocado de cabelo branco. Cada passo era acompanhado com muita apreensão. Passos de gigante disposto a pisar a toa, ao sabor dos tropeços. Passos de quem nunca aprenderia a andar direito na vida.

Quando meu pai me tomou nos braços pela primeira vez, há exatos vinte e nove anos, eu chorei muito e ele me ergueu bem alto, como quem ostentasse um troféu. Com o tempo, no entanto, as lágrimas secaram e o dourado foi perdendo brilho. Eu virei um moleque feio, cheio de espinhas, incapaz de encarar as meninas na rua. Naquela altura, diferentes em quase tudo, contrariando o signo que nos rege, uma única inclinação nos aproximou. O velho fazia vista grossa para a minha timidez, e me arrastava numa peregrinação interminável pelos botecos da cidade. De bar em bar, acabamos nos tornando amigos.

Parceiros de copo, vocês sabem, não costumam medir as palavras. Colocam as cartas na mesa sem um pingo de constrangimento. A irmandade das bodegas abraça um corno triste e os jogadores derrotados da terceira divisão com o mesmo sorriso enternecido. Não existe dinheiro curto ou coceira no cacete poupada pela conversa. Foi em meio a esse gênero de honestidade que eu conheci o homem que pagava as contas lá de casa. Não fosse a cerveja, eu nunca saberia que, além de sustentar quatro filhos ingratos e educá-los com toda a sorte de sacrifícios, meu pai afundava no lodo escuro das paixões, o coração fustigado como um pedaço de pano largado no vento. Do legado construído para a nossa família, tomei posse dessa lição e a guardei como um segredo valioso, só pra mim.

Há exatos vinte e nove anos, em seis de junho de 1980, eu cheguei em casa num cesto e roubei o aniversário de meu pai. Faminto e chorão, apesar de tudo, fui recebido como um presente.

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2 Comentários »

  1. Trofeu erguido há exatos vinte e nove anos. Mas que enche de orgulho este “pai coruja” pelo profissional que você se tornou. É claro que toda e qualquer vitória nunca conseguimos sozinho, e nesta caminhada encontrei pessoas me ajudaram na construção dos valores mais tarde transformados em “trofeus”.
    Feliz aniversário.
    Com certeza iremos bebemorar até o dia que o Pai permitir

    Comentário por Luiz Antônio dos Santos — junho 5, 2009 @ 1:13 pm

  2. Até o dia em que o Pai permitir, ou o fígado aguentar… O que ocorrer primeiro.

    Comentário por spleencharutos — junho 5, 2009 @ 1:16 pm


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