Spleen e charutos

maio 29, 2009

Eu, Camus e os romeiros de Zambrana

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 7:10 pm

Visitar a exposição “Romeiros de fé”, do repórter fotográfico Alejandro Zambrana, foi suficiente para me convencer de que passei a vida inteira na capital da Argélia

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Não passo de uma criatura sem fé. Preciso de alguma tragédia doméstica para voltar os olhos súplices para o céu. Se uma conta atrasa e mastiga o resto de juízo escondido sob os anéis de meus cabelos, as goteiras do telhado me compelem furiosamente para a crença e a devoção. Assim que a chuva passa, no entanto, retomo a simplicidade confortável de minhas ocupações cotidianas, indiferente às entidades misteriosas desalojadas pela precipitação. Elas só moram nas nuvens porque não conhecem a cidade de Camus.

Em um ensaio sobre a terra onde passou a maior parte de sua vida, o Prêmio Nobel de Literatura Albert Camus elege a juventude e a generosidade da paisagem como os maiores responsáveis pela satisfação ruidosa e inconseqüente de seus concidadãos.

“É preciso, sem dúvida, morar muito tempo em Argel para compreender até que ponto um excesso de bens naturais pode prejudicar a sensibilidade. Aqui não existe nada para aquele que deseja aprender, educar-se ou tornar-se melhor. Essa terra não oferece lições. Nada promete ou deixa entrever. Contenta-se em dar, fazendo-o prodigamente, entretanto (…). Ordena que se faça um ato de lucidez, como se faria um ato de fé”.

Pois bem. Visitar a exposição “Romeiros de fé”, do repórter fotográfico Alejandro Zambrana, foi suficiente para me convencer de que passei a vida inteira na capital da Argélia. O que esperam aquelas mãos erguidas? O que desejam alcançar? No release enviado para a imprensa, Zambrana compartilha um testemunho curioso, que parece ter impregnado com sensibilidade singular os momentos capturados pelas lentes de sua câmera, e nos dá uma pista. “Quando estava indo a um dos locais de peregrinação em um ônibus coletivo, ouvi um romeiro dizer que quem vai a Juazeiro tem que sofrer”.

O mundo ainda vai girar um bocado antes do tempo riscar as primeiras marcas no meu rosto. Até lá, o azul inclemente que castiga os romeiros de Juazeiro, a velhice cheia de rugas, encurvada e devota, será para mim como um retrato de cores fortes pendurado na parede de uma galeria. Dotado de maturidade e senso estético inegáveis, contudo, o trabalho de Zambrana possui ainda um componente humano fundamental. Está tudo lá – carne, suor, aflição e empatia –, embora meus olhos imberbes não tenham idade suficiente para extrapolar a plasticidade do universo sensível e, de fato, enxergar.

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4 Comentários »

  1. até vi na matéria da aperipê vc compenetrado, olhando a exposição..
    🙂

    e eu acho tão bonitas as demonstrações de fé, a esperança cega que toma conta da gente que está desesperada com alguma coisa.. muitas vezes só ela segura, só ela mantem em pé. e vivo.

    Comentário por Débora — maio 29, 2009 @ 7:32 pm

  2. Também quero ver!
    Talvez entender a fé dos outros já seja alguma coisa 😛
    Beijo, Rian!

    Comentário por Carol — maio 29, 2009 @ 9:00 pm

  3. Bonita sua visão Calango, bom seria se todos os jornalistas contribuissem com criticas, sejam elas de qualquer tipo. Abs.

    Comentário por Cândida — maio 29, 2009 @ 9:47 pm

  4. Lendo isso lembrei de mim em uma frase: “eu morri, nem sei mesmo qual foi o mês…”

    Comentário por Zeratustra — maio 30, 2009 @ 10:47 pm


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