Spleen e charutos

maio 8, 2009

O gesto duvidoso de Edvaldo

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 3:35 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Seu donzelo! Era assim que João Ferreira, pai de um amigo de infância, me cumprimentava quando eu aparecia na porta de sua casa. Coroado por uma barba imensa, os cabelos brancos na cabeça emoldurada pelos óculos de aro grosso, Seu João levava no gesto aquela espécie de autoridade que só pode ser ostentada após o acúmulo de muitos anos. Robusto, aspecto grave, o velho parecia governado por uma ordem diversa. O tempo havia lhe mostrado tudo. Ele era o dono da razão, herdeiro de certezas, depositário exclusivo da natureza das coisas na superfície do universo.

O segredo só me foi revelado após algum constrangimento. A turma do colégio jogava conversa fora, na calçada, enquanto o bruxo da Dom José Thomaz folheava as páginas de um jornal. A coitada que estacionou na frente da garagem não devia circular pela vizinhança com muita freqüência. As ruas do bairro São José serviam de pasto para um rebanho de vilanias. Comentava-se, por exemplo, que o velho havia envenenado uma árvore, aborrecido com o barulho dos estudantes que perturbavam o seu descanso sob a sombra do Mata Fome. Ocorre que, cansado de gastar saliva com a moça, Seu João esperou ela se afastar e, sob uma chuva de impropérios, esvaziou os quatro pneus do carro. Foi como uma epifania! Assustado, pensei que também exibiria, um dia, a arrogância dos grisalhos. Eu saudaria os outros com desaforos, autorizado a fazer justiça com um saco de pregos na mão.

A fantasia é um pouco absurda, mas parece que não sou o único a acalentar esse arremedo de onipotência. Ao realizar uma reforma no secretariado do município com o único objetivo de acomodar um aliado na Câmara de Vereadores, o Prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira, não demonstrou o respeito que deveria pela vontade soberana do povo. Não sou obrigado, sob nenhuma circunstância, a revelar meu voto, mas o faço aqui para melhor demonstrar a imparcialidade de meus argumentos. Votei em Chico Buchinho, ansioso para reconhecer entre os nossos representantes alguém que enxergasse nas demandas ancestrais da cultura uma prioridade. Acontece que a maioria da população não pensa da mesma forma, e lhe negou um mandato em duas oportunidades diferentes.

Quem sou eu, confrontado por uma cidade inteira? Quanto pesam as minhas ansiedades? Se me abstenho de interferir no destino de uma árvore, inspirado pelo casmurro João Ferreira, é porque não encontrei as fortunas que me prometeram os insultos encobertos pelas montanhas de pneus furados. Aprendi apanhando que, entre o certo e o errado, ainda sobra um bocado de espaço para acoitar o duvidoso.

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2 Comentários »

  1. e, segundo edvaldo no jornal do dia, a maior alegra dele é ver chico buchinho voltar para a câmara e ainda comê-lo.

    tem coisa mais linda que política não. sério mesmo.

    Comentário por Débora — maio 10, 2009 @ 4:19 am

  2. “A minha maior alegria é ver você (Chico Buxinho) voltar à Câmara dos Vereadores. Vou cumprir o compromisso que assumi com o PT e como você.”

    (Jornal do Dia – 16/04/2009)

    heh.

    Comentário por Débora — maio 10, 2009 @ 4:20 am


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