Spleen e charutos

maio 2, 2009

Pra ingrês ver

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 3:20 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

As cidades possuem os cronistas que merecem. Se não me embrenho na paisagem, como fez João do Rio, aprendi com a pena mais enlameada da antiga capital republicana a combater a preguiça e navegar à deriva, no encalço das histórias adormecidas no barulho das esquinas.

Quando Deilson Pessoa me convidou para visitar Alex Sant’anna, outro dia, ofereci meu sábado em sacrifício. Como recompensa, além de uma dúzia de cervejas, a alma encantadora das ruas me presenteou com uma radiografia da cena sergipana na óptica de um de seus personagens mais ativos. Entre todos os problemas apontados enquanto a céu escurecia, me chamou atenção a preocupação com o espaço reservado para o exercício crítico em nossos periódicos, aparentemente ignorantes do papel que lhes cabe na cadeia produtiva da cultura.

Alex havia acabado de se apresentar no Projeto MPB Petrobras, mas a despeito do cuidado dedicado ao espetáculo, não leu sequer uma linha a respeito do ocorrido. Eu, que assisti ao show numa das primeiras filas do Teatro Tobias Barreto para depois esquecer quarenta minutos de música e poesia num cesto afetivo, fiz cara de Mea Culpa e deitei a língua em meus pares. O veneno de minhas palavras, no entanto, só feriu a mim mesmo.

Vacinado, comecei a ficar mais atento. Hoje, procuro me aproximar das pessoas, compartilhando angústias e alegrias. Foi o que ocorreu na última quinta-feira, quando a NaurÊa reuniu os mais chegados no Viva Ará Café, em torno do lançamento do DVD “Sambaião Ao Vivo”. Deu gosto de ver os convidados da banda cantando “Black people house”, primeira faixa do EP “Babelesko”, lançado há pouco mais de um mês. A empolgação da molecada, que pulava entoando o refrão, transpirando juventude, reafirmava com um sorriso as razões que fizeram da NaurÊa um caso singular dentro da música sergipana.

Mas nem tudo é festa. As críticas são muitas, partem de todos os lados, e normalmente estão atreladas à constante presença da banda em eventos promovidos pelos poderes públicos. Nenhuma das acusações explicaria, contudo, o reconhecimento conquistado além de nossas fronteiras. Se a NaurÊa realmente fosse fruto de um capricho estatal, não haveria motivos para a Bangalafumenga de Rodrigo Maranhão, uma das figuras mais festejadas de uma nova geração de músicos brasileiros, incorporar duas canções de Márcio de Dona Litinha ao seu repertório. O suposto apadrinhamento não explica as turnês européias, nem o recente convite para apresentação no London International Festival of Exploratory Music.

Já houve quem se referisse à NaurÊa como um bando de hipopótamos enfurecidos com a pele de seus instrumentos, e a opinião deve ser respeitada. A banda pode ser definida de muitas formas, e a futura apresentação na capital inglesa deve derrubar uma última ressalva. A partir de agora, todo mundo pode dizer que a NaurÊa faz forró pra ingrês ver.

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5 Comentários »

  1. naurea é uma banda boa, de otima qualidade musical. não é de se estranhar o fato deles fazerem tanto sucesso dentro e fora do país.

    mas que há treta pra eles tocarem em tds os shows realizados pelo governo e pela prefeitura, há.

    😛

    Comentário por Débora — maio 2, 2009 @ 8:28 pm

  2. Pere aí, deixe ver… Surgida em 2001, de lá prá cá lançou seis títulos entre ep’s, cd’s e dvd; vai pra quarta turnê na europa, estendendo dessa vez pra mais dois países além da Alemanha; procurando sempre traçar uma identidade própria ao seu trabalho.
    Cara, entre tantos desacertos das entidades públicas ligadas à cultura e lazer em Sergipe, salva-se a presença constante da nauRêa nos eventos como um dos poucos pontos positivos.
    Seria patético inserir na programação dos shows minhocas fossilizadas com suas músicas pré-históricas, a bem do discurso ranheta de que todos devem ter oportunidade blá blá blá. Show publico não é projeto pessoal de artista, pelo menos na ótica da multidão.
    E seria burro que, num evento pra 15 mil pessoas, se colocasse um artista de 80, 120 admiradores. Quem tem essa natureza são os projetos culturais de base, que não estão sendo cobrados dos órgãos culturais tanto quanto o pelotão da chatice e do ciúme tem lhes reclamado uma nesga ao sol.
    Primeiro, eles que saiam da obscuridade criativa!

    Comentário por Deilson Pessoa — maio 4, 2009 @ 10:01 pm

  3. Naurêa “é muito mais além!”

    o resto, é inveja…

    Comentário por AZUL — maio 5, 2009 @ 3:54 pm

  4. É isso ai, Calango! Sair da toca é sempre bom! Respirar novos ares! E eu só sossego quando finalmente puxar uma ciranda nos terreiros portugueses ao som de Bomfim! Beijinhos, saudades!

    Comentário por Rita Brasileiro — maio 13, 2009 @ 8:04 am

  5. Agora tá perdoado pela entrevista bêbado.
    Abraço

    Comentário por Alex — maio 16, 2009 @ 3:24 am


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