Spleen e charutos

abril 24, 2009

A propósito de um filme – 7 anos

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 3:53 pm

Eu sei como pisar no coração de uma mulher

Eu sei como pisar no coração de uma mulher


Rian Santos
riansantos@uol.com.br

Deixe eu me defender, antes que algum gaiato se adiante. Não, eu não sou crítico de cinema. De acordo com o meu chefe, em termos objetivos, o que eu faço não é nem jornalismo. Eu poderia até citar dois ou três nomes consagrados no mundo inteiro que me ajudaram a definir um estilo, mas como não gastei a bunda no banco duro da universidade para copiar release, aquiesço de cabeça baixa e aceito a sentença tranquilamente. De qualquer modo, seja qual for a natureza de meu trabalho, é ela que me permite desperdiçar algumas linhas com um filme que não vai mais ser exibido. Não entendo nada de cinema, não me atenho às pautas caras ao jornalismo, mas a respeito do sentimento que perpassa os noventa minutos de “7 anos” (7 ans; França, 2007), a bela estréia do iniciante diretor francês Jean-Pascal Hattu, posso formular meu próprio juízo.

“7 anos” pode ser definido como o encontro de Maité, Vincent e Jean, protagonistas do filme. Maïté é casada com Vincent, que acaba de ser condenado a sete anos de prisão. Duas vezes por semana, ela pega a roupa suja, lava, passa e leva de volta à cela do marido. Um ritual que executa com afinco e precisão. Um dia, ao sair do presídio, ela conhece Jean, que a seduz, e os dois se tornam amantes.

Reduzir o filme a tão pouco, no entanto, seria como tomar emprestadas as palavras do sobrinho de Maité, um garoto curioso, que dedica um estranho afeto às caixas de fósforo. “Quando eu estou dormindo, não escuto nada. É como se eu estivesse surdo”.

Íntimo da Dona Insônia, não consegui tapar os ouvidos em nenhum momento da projeção. Para mim, “7 anos” trata do poder que delegamos aos que mais amamos, únicos seres capazes de nos ferir profundamente. Jean adora os cigarros, e fuma compulsivamente. Maité ama Vincent, e permite que, mesmo trancafiado, ele maneje as peças de um jogo obsceno, sob pena de seu próprio aniquilamento. Eu gosto de escrever, e estrago minha saúde deitando palavras inúteis sobre o papel. Todos os cabelos brancos antes do final da página. Mas qualquer dia eu tiro umas férias de minhas inclinações, e descanso meu corpo cansado numa sala com ar-condicionado. Alugo minha pena por trinta dinheiros, e empenho a minha consciência no banco, como fazem os jornalistas de verdade.

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2 Comentários »

  1. Não fui tão entusiasta do filme quanto tu, mas vale pela tentativa…

    Vi-o ao lado de uma ex/futura-namorada ex-freira e admito que saí da sessão com algo de bom me incomodando…

    WPC>

    Comentário por Wesley PC> — abril 27, 2009 @ 8:39 pm

  2. Calango, deveria ter seguido minha intuição e ter ido assistir o filme. Agora, é ficar na expectativa, quem sabe não chega por aqui em DVD.

    Comentário por Cândida — maio 5, 2009 @ 11:37 pm


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