Spleen e charutos

abril 11, 2009

Num papel de pão

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 3:38 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Quando um feriado se aproxima, amarrado a essa página por ofício, encosto a metralhadora num canto da sala e saio de casa com uma esferográfica azul. Nesses dias excepcionais não é preciso pedir quem me dera. Nos poupamos de jogar as mãos pro alto por qualquer coisa, satisfeitos com uma moeda de cobre no bolso, um brinquedo comprado na feira, uma dose generosa de rum.

Ninguém é obrigado a peixe nem reza, mas por uma sexta-feira santa, uma sexta-feira de atmosfera extraordinária, eu abriria mão de minhas convicções e fingiria alguma educação ao folhear o menu. Infelizmente, a fé que remove montanhas parece não gozar da mesma intimidade com as nuvens que passeiam no céu, e, sem querer, acaba justificando as digitais abandonadas por uma infinidade de dedos gordurosos, falanges que vadiam a própria imundície pelos cardápios surrados das churrascarias.

Quem me dera a professora doente num dia de aula… Se o bacalhau no centro da mesa desmanchasse as fisionomias salgadas nas reuniões de família – o maior milagre do Cristo ressuscitado lamentavelmente ignorado pelas sagradas escrituras – não seria preciso que alguém transformasse a água em vinho. O refrigerante sem gás, garrafas cada vez maiores, cinco litros de propaganda corroendo nosso aparelho digestivo, daria conta de matar a sede de todo mundo, enchendo os copos descartáveis com um bocado de alegria.

Lá em casa, o tempo só abria quando meu pai queria sol. Filho legítimo de todas as divindades, único herdeiro do universo, ele afastava as cortinas da janela, no quarto ainda escuro, e desenhava a paisagem que mais apetecia ao seu intestino celestial. Do lado de fora, os passarinhos cantavam, se ele acordava com as morenas da praia na remela dos olhos, ou despencavam mudos, chumbo largado no espaço, quando seus nervos ansiosos imploravam um refresco para o músculo cansado da cantoria em si bemol.

Foi com o velhinho que eu peguei as manhas. Quando um feriado se aproxima, quando é conveniente, ignoro as manchetes enfadonhas dos diários e tiro onda de compositor popular. Desenho um céu cheio de estrelas com minha caneta Bic num papel de pão.

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