Spleen e charutos

abril 3, 2009

Na cozinha de Amaral

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 4:20 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Nunca imaginei onde me levaria tanta leitura. A minha mãe importava que fosse longe da esquina. Enquanto os meninos de minha idade esfolavam os joelhos na rua, eu conversava com deuses e monstros, ocupado com odes e litanias. Não conquistei medalhas no colégio, não roubei o primeiro beijo das meninas. Ao invés disso, Cem Anos de Solidão no quarto trancado – A mão direita cheia de calos, as páginas manchadas como testemunhas.

Quando levanto o copo saudando um amigo, quando beijo minha esposa, enternecido pela idéia de um filho, me perco no gesto mas procura as palavras certas, atencioso como quem se dedica à redação de um livro. A calçada de um café na Praça Tobias Barreto, o rosnado de um cachorro, tudo vira personagem. O vento, a chuva, o calor e o frio convertidos em bonecos animados, submetidos aos caprichos do títere na outra extremidade do fio.

Invento saudades. Antecipo a perda de meus afetos mais caros e desenho cortejos fúnebres, regados a muita cachaça e um bocado de agonia. Depois abraço o defunto querido, maltratado pelo remorso, dissimulando o espanto com mesuras e carinhos.

Outras vezes fantasio o meu próprio velório. Vejo uma longa fila de namoradas tristes. Autoridades austeras e parentes inconsoláveis carregam o esquife. Alguém lembra meu passado de estivador, a vida inteira descarregando nojeiras na superfície alva do papel, mas esquecido no fundo do caixão, confortável e reto, me faço de morto e dou ouvidos pra coisa nenhuma. Foda-se o mundo e os seus rangidos! Foda-se a alegria! Uma única pergunta atormenta minha alma de imortal ignorado pelas Academias de Letras. Meu deus, pra quê?

Pelo respeito dos homens, por dinheiro, pela paixão da nomeada? Nada disso! Arrastado por Sales Neto, a semana passada, depois de uma bebedeira no Bar do Camilo, respondi a pergunta que fustigava meu coração desde que Tia Rosa, a professora mais bonita da cidade, me ensinou as primeiras letras no antigo Colégio Visão. Tantas páginas viradas só fariam sentido acompanhadas de uma taça de vinho, o abençoado vinho que é servido na cozinha de Amaral.

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1 Comentário »

  1. bela narrativa, bela história

    Comentário por ediney — abril 11, 2009 @ 12:59 am


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