Spleen e charutos

março 28, 2009

A crítica como declaração de amor ao cinema

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 3:10 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Quando Roberto Nunes me convidou para ajudá-lo na produção e divulgação do Cine Cult, perguntei aos botões que minhas camisas não possuem: Será que a proposta não me transforma em um homem de cinema? A negativa viajaria meses, mas sexta-feira, enquanto o crítico Daniel Caetano tirava onda de turista e esquecia a cerveja no copo, ocupado em martelar as patas da culinária local, não tive como me esquivar.

Essa foi a quarta visita de Daniel Caetano a Aracaju. Em seu primeiro contato com a cidade, o rapaz provocou escândalo. Enquanto todos festejavam o investimento realizado pelo Governo do Estado no último filme de Paulo Thiago, o crítico preferiu colocar o dedo na ferida e pensar de que maneira o discurso de um forasteiro poderia versar sobre a realidade alheia. Hoje, no entanto, ele parece ter conquistado certo traquejo político. “Não vou falar sobre Orquestra dos Meninos. Não gostei do filme, mas não o vi”.

No final das contas, parece que o inconveniente estava certo. A despeito do alto investimento realizado e do grande número de cópias disponíveis, “Orquestra dos Meninos” fez menos de 25 mil expectadores, um resultado considerado pífio.

Daniel lembra que sua primeira experiência como crítico coincidiu com um momento particularmente feliz do pensamento sobre cinema. A Contracampo, uma revista virtual que formou uma geração inteira de cinéfilos, estava engatinhando quando o editor Ruy Gardner o convidou para fazer uma entrevista com Carlos Reichenbach. É com a propriedade de alguém que conhece o assunto, portanto, que ele defende a multiplicação dos meios.

“A editoria de cinema cresceu muito na internet porque os impressos não reservam espaço para o pensamento crítico. Esse negócio de privilegiar a opinião dos especialistas é uma grande besteira. O mais importante é a circulação de idéias”.

Para Daniel Caetano, a crítica só é válida quando revela a emoção do autor, enquanto “declaração de amor ao cinema”. Talvez por isso, ele faça ressalvas à maneira como alguns se dedicam ao exercício. “Existem os críticos cansados. Muitos deles exageram na agressividade para conquistar espaço, e delimitam seu território de uma maneira não muito saudável”.

Como qualquer apaixonado pelo cinema, Daniel Caetano comemora o impulso que o cinema brasileiro tomou nos últimos anos, mas não esconde o descontentamento em relação aos modelos adotados. Ele lembra o grande número de filmes realizados hoje, mas observa que pouquíssimos alcançam o público. “Hoje são rodados oitenta longas por ano. Por outro lado, existe a turma da mamata. Os tubarões do cinema fazem um trabalho puramente comercial, mas não se pagam, e se escoram no dinheiro público”.

Apesar de tudo, Daniel Caetano encara seu ofício com paixão. “Essa é apalavra fundamental. Quem discute, quem critica, está querendo transformar. Se existe intenção de diálogo, existe interesse afetivo e de transformação”.

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2 Comentários »

  1. Oi Rian, como vai, tudo bem?
    Primeiro quero dizer amigo,que seus textos são muito bons. Por vezes divertidos, outros mais sérios, outros irônicos, enfim para todos os gostos. Permita-me apenas corrigir algumas informações e fazer algumas considerações sobre o texto que publicou em seu blog “Spleen e Charutos”, dia 28/03 com o título “A crítica como declaração de amor ao cinema”.
    Quando se refere ao número de espectadores do “Orquestra dos Meninos” e se pergunta se foi bom ou não para o estado apoiá-lo, não sei qual foi sua fonte, mas sinto informá-lo que estava muito errada. De acordo com o “Filme B”, o site mais confiável sobre dados, bilheterias e espectadores sobre filmes no Brasil, em sua sexta semana em cartaz, o longa rodado em nosso estado com dezenas de atores locais em seu elenco e que gerou outras dezenas de empregos durante seu período de produção e filmagem em Sergipe, já tinha feito mais de 62 mil espectadores. Isso sem contar as pré-estréias em nove cidade brasileiras (Aracaju, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Brasília, Fortaleza e Santos) e as exibições e debates em faculdades no Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte.
    Não se deve levar em consideração também, é claro, o fato do filme abrir com uma cartela informando que foi rodado em Sergipe e ter sido exibido em festivais no Canadá, Paris, Los Angeles (onde Murilo Rosa saiu agraciado com o prêmio de melhor ator pelo júri popular) e ter sido comercializado em Berlim. Em breve estará no Festival de Chicago.
    E quando cita em seu texto do grande número de cópias que o filme tinha, eu te pergunto: já que não especifica este tal grande número de cópias, o quanto é grande pra você? 50 cópias (o número do “Orquestra dos Meninos”), 112 cópias (número do filme nacional “Entre Lençóis”, com Gianechni e Paola de Oliveira) ou 501 cópias (do desenho animado “Madagascar 2”)?
    Um grande abraço do amigo

    Wendell Barbosa

    Comentário por Wendell Barbosa — abril 5, 2009 @ 9:45 pm

  2. Meu caro Wendell! Bom que você tenha encontrado o texto. Melhor ainda que tenha corrigido a informação. De qualquer modo, sob meu ponto de vista, o número de expectadores continua sendo ínfimo, tendo em vista o volume de recursos investidos. Fico pensando o que os realizadores locais (se é que temos isso) poderiam fazer com alguma instrução e tanto dinheiro na mão…

    Quanto às “dezenas” de empregos gerados, todos sabemos (você, melhor do que ninguém) a diferença de tratamento dispensada aos contratados locais. Velhinhas mantidas sob sol escaldante a manhã inteira, a falta de respeito dispensada aos nossos atores e produtores, que receberam um salário muito inferior ao do resto da equipe, como se nosso suor não valesse como o dos outros, entre outros problemas relatados por pessoas diretamente envolvidas na produção, não carecem de nova confirmação.

    Não vamos aqui apelar para o juízo de valor, mas ouvi de atores que participam do filme sua decepção com o trabalho de Paulo Thiago. Pelo susto que tomaram, parece até que o diretor já tinha feito algo que prestasse. Não me adimira, portanto, que tenha alcançado alguma repercussão (vamos chamar assim, pra sinmplificar as coisas) em festivais que não possuem qualquer tradição, totalmente ignorados pela crítica especializada.

    Por fim, o número de cópias de Orquestra dos Meninos (foram feitas 50 cópias) seria suficiente pra converter o filme num grade sucesso de bilheteria. Basta dizer que boa parte dos filmes distribuídos no Brasil não possui mais do que uma cópia disponível.

    É isso, meu caro. Vamos discutindo, porque como diz Daniel Caetano, quem critica está interessado na transformação.

    Comentário por spleencharutos — abril 6, 2009 @ 2:54 pm


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