Spleen e charutos

março 21, 2009

O rio de minha aldeia

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 5:33 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Diante de minha janela, num terceiro andar da Rua Propriá, respiro fundo e trago a madrugada em grandes lufadas. É sábado. Em meus pulmões, delitos e sussurros acabam aninhados. Eu largaria minha casa, o copo no batente, mas adivinho na fadiga das pernas, margeando a Rua da Frente, um canal fétido, lixo e fezes em nossas narinas, comboio de merda correndo o afluente.

Na última terça-feira, como sempre ocorre no aniversário de Aracaju, uma grande barqueata foi realizada com o objetivo de chamar atenção para a importância de nossos mananciais. A expectativa era de que mais de 800 pessoas participassem da festa. Atenta à ditadura do politicamente correto, a Prefeitura Municipal de Aracaju não se fez de lograda. Providenciou sanfoneiro, discurso, muita falação. De concreto, no entanto, o prefeito Edvaldo Nogueira não realizou nada. Situados no abismo localizado entre intenção e gesto, os leitos de nossos rios continuarão acolhendo dejetos.

A questão foi levantada por Cristian Góes, em oportuno artigo publicado pela Infonet. Em tom de indignação, o jornalista confronta a pauta imposta pelas demandas contemporâneas e a práxis governista. “Como pode, por exemplo, uma cidade que repete esse velho bordão de qualidade de vida e sequer tem uma mínima política ambiental? A questão do meio ambiente em Aracaju e Sergipe é uma tragédia e com terríveis reflexos para as próximas gerações. E ainda vai o prefeito para a barqueata (Aracaju de Tó Tó Tó) falar diante do rio Sergipe que Aracaju transforma criminosamente num imenso esgotão? Sinceramente”.

Agora, quando temido rodízio no fornecimento de água potável bate à nossa porta, voltamos todos os olhos pro céu, ansiosos por chuva. Melhor faríamos se prestássemos atenção nas políticas públicas responsáveis pela questão. A triste verdade, no entanto, é que a Secretaria de Recursos Hídricos criada pelo governador Marcelo Déda não faz mais do que São Pedro para suprir a nossa carência de água.

Sertanejo citadino, desprovido de fé e de cisterna, confesso a inveja alimentada por tanta omissão. O Tejo, sem nenhuma dúvida, é maior e mais belo do que o rio que corre pela minha aldeia.

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1 Comentário »

  1. É meu amigo. Realmente o Tejo é deslumbrante. A Câmara Municipal de Lisboa fechou o transito na região da Praça do Comércio (Centrão de Lisboa)para obras de recuperação do Tejo. Saneamento, Drenagem e Tratamento de Esgotos.

    Comentário por André Gusmão — março 26, 2009 @ 7:46 am


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