Spleen e charutos

março 4, 2009

Atrás da porta

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 10:29 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Ainda sou o menino de olhos fechados e mãos espalmadas que, ajoelhado ao lado da cama, pedia a um deus que só conhecia de ouvir falar um pouco de tempo pra cometer os pecados que lhe cabiam. Meu medo é que o criador, o dono do universo – o mágico encastelado nas alturas que ainda hoje imagino barbudo, cabelos brancos e compridos, carrancudo e caindo de velho como o avô de todo mundo –, tranque nossa casa antes de eu dizer adeus a minha mãe. Quando isso acontecer, tenho certeza, ficarei plantado atrás da porta, um saco cheio de interrogações pendurado nas costas, quatro pedras atiradas a esmo, com vontade de machucar alguém.

Minhas dores não valem preces nem poemas. Comparadas às feridas desse comboio girante onde vivemos todos, milhares mortos num estalar de dedos, minhas aflições não passam de uma coceira sem importância. Vejam as duzentas famílias que, aqui mesmo, no cu do mundo, foram amontoadas de qualquer maneira no escuro de um galpão. Idosos, mães solteiras, chefes de família, desempregados e uma penca de crianças abandonadas numa favela coberta, sem o consolo de um teto privado ou das estrelas que iludem sem distinção.

De acordo com reportagem de Cássia Santana publicada neste mesmo diário, a promotora de justiça Conceição Figueiredo, do Núcleo de Atendimento à Infância e à Adolescência (Naia), não tem dúvida de que, apesar da necessidade de remoção apontada em audiência pública, as famílias alojadas no galpão permanecerão no local por pelo menos um ano. Se nesse meio tempo, num gesto de enfado, o mistério que nos rege joga uma ponta de cigarro entre os barracos de papelão, não haverá quem responda pelo desastre. O propósito divino operado milagrosamente, por meio de negligência e omissão.

Papai do céu, eu agradeço por tudo o que o senhor me oferece, sempre. Olhe pelos israelenses e pelos palestinos, pelos mulçumanos e por Nova Iorque. Entre os seus filhos mais devotos, os que suportam a fome e sentem frio. Olhe pelas calotas polares e pelas baleias. O seu brinquedo gigante, redondo e azul, respira ofegante, açoitado por toda sorte de flagelos. De minha parte, suplico um pouco mais de tempo. Se isso não ofende a sua onipotência, eu imploro, volte seus olhos misericordiosos pra bem longe de mim.

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