Spleen e charutos

fevereiro 28, 2009

Os signos do caminho

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 2:31 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

No fundo, sou um bêbado arrependido. Depois que a euforia me abandona, morro de saudades do dinheiro deitado fora, a cabeça maltratada pela ressaca e pelas contas vencidas. Meu amigo Fábio Sampaio, ao contrário, longe de possuir o temperamento inconsequente atribuído aos artistas, conservaria a lucidez no meio de uma orgia. Arrastado pra uma bebedeira que deveria dar origem ao presente artigo, o rapaz deixou todo mundo falar besteira, mas só abriu o bico no outro dia.

De acordo com Fábio, essa ciência do dia seguinte faz parte de seu código genético. Paulista, filho de sergipana, ele lembra do contato inicial com Aracaju, onde a família veio procurar qualidade de vida. “Meu pai tinha essa coisa de observar muito. Quando chegamos aqui, há dezoito ou dezenove anos, estranhamos um pouco. Meu pai teve a sabedoria de compreender que sentimos um choque de culturas”.

Na época, com vinte e poucos anos, Sampaio já carregava um envolvimento profundo com tudo o que fosse relacionado à arte. Em Santos, como em Aracaju, não podia ouvir uma lata batendo, e freqüentava todos os espaços que dialogassem de alguma maneira com as diversas expressões artísticas. Ele revela, no entanto, que demorou a encontrar sua turma. Aracaju era uma cidade em vias de expansão urbana, e os trabalhos produzidos aqui refletiam o acanhamento de suas ruas.

Embora reconhecesse os valores locais, Fábio sentia falta de experiências mais ousadas, livres das amarras partidas pela arte moderna. Essa impressão só mudou quando ele conheceu Elias Santos e passou a freqüentar o Espaço 455, um atelier onde o veterano brincava com as diversas possibilidades da linguagem visual e reunia uma nova geração de artistas. “Eu já tinha uma história de lidar com os signos, herdada de minha experiência com o graffiti. Me identifiquei muito com o trabalho de Elias Santos, Antonio da Cruz, Jacira Moura e daquela galera que se reunia ali”.

O resultado apareceria em seguida, em exposições como a coletiva “20 de 90”, que sob a sua curadoria reuniu alguns dos nomes mais talentosos daquela década, e projetos inusitados como o Interacidade, responsável pela fixação de uma placa de vende-se na Praça Fausto Cardoso e pelos band-aids coloridos que chamaram a atenção para o abandono que vitimava o farol do Augusto Franco. “Um trabalho genuíno sempre realiza alguma espécie de questionamento”.

Usando o que tiver de usar, como destacou o renomado crítico Paulo Klein, Sampaio segue produzindo, reunindo signos como quem lança sinais de fumaça, chamando atenção dentro e fora da aldeia. A Galeria Cine Cult Arte em Cartaz, que durante um curto espaço de tempo, novamente sob a sua curadoria, foi responsável por um verdadeiro sopro de renovação no cenário local, o recente contrato firmado com o escritório de artes Pastores de Abril, sediado em Salvador, e o catálogo que está prestes a lançar, reunindo o conjunto de sua produção, são provas de que a paisagem não determina o tamanho de um artista. “Se eu morasse no sertão, estaria fazendo a mesma coisa. É meio intuitivo, mas sinto que estou no caminho”.

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4 Comentários »

  1. Meu caro amigo… da próxima vez serei menos besta e mais bêbado.

    Comentário por Fábio Sampaio — fevereiro 28, 2009 @ 5:59 pm

  2. Eu te avisei Rian, Fábio Sampaio é um cara dificil de se pegar…
    Essa entrevista terá que ter repeteco e me prontifico a ficar com a chave do bar ou de outro estabelecimento similar!

    Comentário por Roberto Nunes — março 1, 2009 @ 10:47 am

  3. Adorei o texto…

    Comentário por Pollyana — março 1, 2009 @ 8:14 pm

  4. Olha, sou fã desse garoto! Quer dizer, dos garotos! 😛 Fábio e Rian!!

    Fábio, adorei seu comentário!

    Rian, nem preciso dizer o quanto gostei dessa sua iniciativa de postar uns ‘papos’ aqui em seu blog… Alex Sant’Anna, Fábio Sampaio, Baggios, Cine Cult,… Mocinho, você vai longe! E assim também sinto minh’alma um pouco revigorada ao passar por aqui!

    Fico devendo, então, postar minha ‘entrevista’ com o Fábio e deixar o link aqui pra vocês!!

    Beijos!! Saudades, galera!!

    Comentário por Rita Brasileiro — março 6, 2009 @ 10:13 pm


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