Spleen e charutos

fevereiro 21, 2009

Eu, Pierrot

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:02 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Não sei se o leitor já tomou banho de cuia. De um modo ou de outro, deverá experimentar a sensação nos próximos dias. Uma coisa, o escrevinhador garante: redigir o que seja com os fluidos da folia nas dobras do sovaco não é tarefa pra muitos. Segue abaixo, portanto, um texto publicado ano passado, como providencial protesto pela ingerência do dinheiro público que mais uma vez espeta nossos olhos no céu, ansiosos por chuva. O leitor vai notar uma leve mudança no ponto de vista do cronista, que continua manco mas não se furtou a ver Morais Moreira e Alceu Valença no palco montado pelo Rasgadinho. É que o texto serve também com um mea culpa. Vocês não podem imaginar os milagres operados pelos traquejos de uma mulher num coração casmurro como o do escriba!

O orgulho de macho nunca me permitiu usar a fantasia chorosa e cabisbaixa do Pierrot. Já que o negócio era atender aos caprichos da imaginação, que as Colombinas se derretessem sob o domínio de meu sorriso de papelão. Acontece que a diáspora carnavalesca, com seus engarrafamentos de alegria estridente e dias seguidos de ofegante epidemia, já não me apetece. Deixo a fantasia do fanfarrão canastrão e bem disposto que nunca fui guardada no armário e desfilo uma melancolia tranqüila pelas ruas abandonadas da cidade.

Aracaju despovoada não é só o retorno à serenidade e quietude que os tabaréus escondem na falta de educação dos cruzamentos e salas de cinema da província. É a reconciliação com um tempo vagaroso, mais apropriado à constante preguiça que me anima e a geografia dos mangues atolados de merda que espalham sua pestilência pela Beira Mar. Os relógios como adornos, tão dispensáveis quanto os frangalhos circenses e a penúria satisfeita da euforia expansiva num cenário desprovido de confetes e serpentinas, não marcam nada. Os humores do corpo é que ditam os horários. Pra quê esbórnia maior?

A Prefeitura promete revitalizar o carnaval, apoiar o desfiles dos blocos de rua, mas isso é coisa de gente que tem saudade do que nunca viu. Aqui, somos todos ruins da cabeça, doentes do pé. O que mais explicaria nossa sede implacável pelos pracatuns baianos? Mesmo nos centros da folia, o carnaval de verdade, ironicamente, só existe nas cismas alimentadas por aquela gente sem animação que promove os eventos. Mercantilizaram a orgia. Não existe Arlequim, por malicioso que seja, que se dê bem sem pagar pelo abadá. A festa da carne foi extinta!

Eu, Pierrot resignado, não acredito mais na satisfação suada e caricata das peças publicitárias. Quem quiser que se conforme com a imagem intermitente dos tubos de televisão. Aproveito a debandada dos selvagens e desfruto o horizonte aberto à vista.

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1 Comentário »

  1. “- Ou você vai comigo pro carnaval, ou com certeza eu vou deixar outro brincar no meu corredor da folia!”

    E assim nosso sagaz escriba se rendeu aos desejos de sua tão amada Colombina.

    HAHAHAHAHAHHAHAA
    :X

    Comentário por Débora — fevereiro 24, 2009 @ 3:39 pm


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