Spleen e charutos

fevereiro 14, 2009

Eu que nunca mandei flores

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 3:09 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Logo eu, que nunca mandei flores pra ninguém… Entre tantos que abrem portas, puxam cadeiras e guardam datas importantes na memória, fui eu o condenado a ostentar essa rosa estúpida na lapela.

Faz tempo que o problema não me atormenta. Abandonei as cismas com as calças curtas e os cabelos compridos da adolescência. Ocorre que a paixão estampada diariamente nos impressos atenta contra a razão. Uma enferma desenganada, que deposita nos classificados a esperança da última carícia, uma cosquinha derradeira no nervo faminto enterrado entre as pernas, teria mais pudor ao se entregar à redação.

Nossos colunistas estão enfeitiçados. A doença evoluiu de tal forma que os descarados dispensam os cuidados recomendados em situações semelhantes. Namoram abertamente, como os convivas de uma orgia, indiferentes ao falatório e às censuras da opinião. Prova disso, não lembro de um único articulista da nossa imprensa que tenha manifestado solidariedade à luta encampada pelo Sintese em defesa do Piso Nacional do Magistério Público. A maioria, ao contrário, acusa o sindicato de intransigência, como se um semestre de negociações infrutíferas não fosse suficiente para esgotar qualquer discussão.

Estranho que ninguém tenha notado, mas é preciso lembrar que o artifício utilizado pela administração estadual para ludibriar os incautos impede que 96% dos profissionais da educação alcancem os benefícios pretendidos pela Lei Federal nº 11.738/2008. Pouco mais de quatrocentos professores, em um universo composto por mais de onze mil profissionais, foram contemplados pela esmola do governador.

O mecanismo adotado pelo Governo do Estado para demonstrar o respeito dedicado ao magistério está eivado de irregularidades. Só para citar um exemplo: A regulamentação estadual do piso deveria passar pela Assembléia Legislativa. Até o momento, no entanto, isso ainda não ocorreu.

Um estudo minucioso da referida lei certamente revelaria outras distorções presentes em sua aplicação, parte delas já apontadas em nota pública distribuída pelo Sintese. Minha competência, contudo, não chega a tanto. Não passo de um cara sortudo. Abriram uma trincheira nas páginas deste diário para que eu defendesse o meu umbigo. É o que tento explicar desde o início do texto. Logo eu, que nunca mandei flores, fui iludido pelo perfume enjoado da vocação.

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2 Comentários »

  1. se toda unanimidade é burra, até q a imprensa local não é um caso perdido…

    Comentário por derley — fevereiro 14, 2009 @ 3:33 am

  2. Engraçado como a imprensa sergipana coaduna com certas visões, e adotam a política do release e dos “pedágios” para imprimir “opiniões”. Viva a liberdade de expressão, viva os blogs, viva os reptéis que escrevem!!!! Parabéns Calango.

    Comentário por Diego — fevereiro 16, 2009 @ 12:03 pm


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