Spleen e charutos

janeiro 31, 2009

Eu não sou daqui

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 2:15 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Conheço bem os perigos de um prédio abandonado. De uma casa arruinada, fiz meu abrigo. De vez em quando, o vento ameaça o telhado. A casa inteira responde com um gemido. Não sei a idade das fendas riscadas nas paredes, ou quantos viciados vivem comigo. Ao contrário da umidade e dos roedores que se alimentam do cataclismo, nem eu nem esse edifício deveríamos estar aqui.

No início do ano passado, o governador Marcelo Déda prometeu dar um destino ao prédio do antigo Atheneu Sergipense. Cerca de R$ 4 milhões seriam investidos para que, dentro de dezoito meses, o Centro Cultural Banese ocupasse o espaço do edifício. Fogos de artifício pintaram o céu. Papocos, discursos, uma placa afixada, e até agora nada. Há pouco mais de seis meses para o vencimento do prazo, nem uma pedra foi virada.

De acordo com o governador, a restauração do Atheneuzinho seria um presente oferecido pela administração estadual aos moradores de Aracaju. “Esse é um prédio que faz parte da história arquitetônica e cultural do nosso Estado e da nossa capital. A sua beleza arquitetônica será restaurada e reincorporada à cidade, mas, ao mesmo tempo, dentro dele haverá um centro de preservação da nossa cultura”. A julgar pelas palavras proferidas na ocasião, não faltam objetivos ao Governo do Estado, mas, aparentemente, alguma capacidade de realização…

Tombado como Patrimônio Público em 1985, o Atheneuzinho pode se transformar no símbolo de um Estado engessado. Mesmo diante da opulência de recursos, se comporta como um atleta fatigado. Se esforça para alcançar determinada marca, mas acaba com a língua de fora, vitimado pelos vícios acalentados nas madrugadas e pela gordura acumulada no estreito das próprias veias.

Alguma coisa aprendi no inverno passado, quando meu sono era interrompido todas as noites pela mesma goteira. Desamparado, nenhum muro faz sombra, nenhum teto constitui asilo. Triste de quem aguarda a demolição do refúgio para pegar no rastro de seu rumo. Não consigo decifrar o desenho nas placas, não recordo as estradas que então me trouxeram, mas tenho certeza que não sou daqui.

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1 Comentário »

  1. não serei daqui por uns dias, mas antes da viajem, li a cronica inevitável e gostei

    hehe

    Comentário por derley — fevereiro 2, 2009 @ 2:09 am


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