Spleen e charutos

janeiro 23, 2009

A educação pela corda

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 2:06 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Há verdades que só vingam quando amordaçadas. Desse estranho cultivo nasceram as mais velhas. Verdades descalças, sem sapatos nem abrigo, que teimam no mundo por insistência da memória. Nos cabelos brancos de minha avó, em sua pele enrugada, há mais do que um fiapo de vida obstinado. Em seu passo calmo há um pedaço de corda que, atado a minhas pernas, transformou um projeto de delinqüente em espírito calejado.

Todos os anos eu solto os cachorros em cima da festa de Fabiano. Não é birra, nem implicância, mas a ciência que os meus me deram do certo e do errado. Embora tenha nascido com o ânimo aleijado, sei que o planeta não gira ao redor do meu umbigo. Observo o derrame de dinheiro público no Pré-Caju e engulo a desculpa de que o desperdício não passa de investimento realizado.

Me vem à lembrança, no entanto, que há muitos anos não ocorre uma edição do Festival de Arte de São Cristóvão (Fasc). Lembro que, na última oportunidade, os malucos tomaram conta da cidade histórica, o coração balançando a um samba de tamborim, a cabeça cheia de cerveja e de outros baratos. Os tambores ecoavam nos becos, expulsando a cultura popular dos seminários acadêmicos, desafiando alguém a dizer que aquilo não era arte.

Eu assistia àquela movimentação toda, os grupos de teatro, os casais a se perder numa esquina para se encontrar em outra, vivendo o meu sonho perdido de Woodstock. Até de manhã cedo, quando um cachorro me acordou nos degraus da Igreja da Matriz, a ressaca mordendo por dentro os vestígios cansados de minha alma.

Não fosse o gesto lento dos idosos, os enganos no emaranhado de tantas barbas grisalhas, eu teria crescido feito erva daninha, barco à deriva, um folião entusiasmado com os apitos do carnaval. Mas eu tive pai, eu tive mãe. Enredos de fios torcidos não permitem que eu atenda o celular dentro do cinema. É por isso que vou esperar o fedor do mijo despejado pelos amigos de Fabiano abandonar minha cidade para tomar de volta os caminhos interditados da Avenida Beira Mar.

Anúncios

3 Comentários »

  1. Pão e circo para a massa Rian. A minoria eles enganam com promessas de campanha. Sergipe está perdendo sua cultura, suas tradições, está desperdiçando atletas. Estão todos envolvidos com a dança zumbi que corróis nossos tímpanos diariamente.

    Comentário por Grace — janeiro 26, 2009 @ 6:28 pm

  2. Concordo totalmente com o autor e defendo o fim dessa festa escrota!

    Comentário por Saulo — janeiro 31, 2009 @ 3:11 pm

  3. bem que poderiamos ter o carnaclássico, o carnajazz e por aí vai, ou quem sabe uma idéia louca: usar o carnaval para ouvir samba, que anda meio obscurecido pelo genérico…

    Comentário por derley — fevereiro 2, 2009 @ 3:23 pm


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: