Spleen e charutos

janeiro 10, 2009

Meu querido viciado em crack

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 4:23 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Os desejos paridos não caminham sozinhos. Carecem de bússola, setas e mapas, um guia treinado e o tempo estio. Existem sementes agrestes, que resistem a quase tudo. Mas os sonhos são feitos de matéria diversa. Dois dedos a menos de água, um pouco mais de estrume, e as noites perdidas em fecundação desvairada redundam em criança natimorta, um bote perdido no meio do mar bravio.

Tenho um amigo, professor do Estado, que ingressou na Universidade Federal de Sergipe determinado a virar gente. Depois de muita penúria e alguma beberagem, Derley concluiu a graduação. Quase sem roupa, sem calçado e sem emprego, meu amigo viajou pra Curitiba com apenas dois putos no bolso. Uma dissertação de título pomposo lhe conferiu o mestrado, mas dois anos de fome não lhe renderam mais que isso – o coração dividido entre duas cidades, e um pedaço de papel superestimado.

Desde que o presidente Luis Inácio sancionou a lei que determina o pagamento do piso nacional de R$ 950 para os professores da Rede Pública, os profissionais da educação guardam no ventre uma esperança venenosa. Aqui em Sergipe, por exemplo, a Secretaria da Educação gritou aos quatro ventos que obedecerá rigorosamente à determinação legal. Ao mesmo tempo se recusa, no entanto, a por termo nas dúvidas que assombram a categoria. Afinal de contas, como será realizado o pagamento do piso? A regência de classe será afetada? Como fica o plano de carreira do magistério? Essas, entre outras perguntas, continuam aguardando resposta.

Versado no tratado da natureza humana de Hume, meu amigo teme que os seus sonhos dobrem alguma esquina perigosa. O sono interrompido por pesadelos de casa vazia, as panelas e cuecas trocadas por uma pedra pequena de crack. A vontade secando, esquálida, famélica. O dinheiro pouco trancado à chave. O que deu nesse menino, que agora anda assim tão pobre? Dizem que vagava perdido, sem mão amiga que lhe apontasse um endereço, órfão de pai zeloso que lhe mostrasse a direção.

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8 Comentários »

  1. Alguma coisa que vale a pena ler nessa terra onde todos se acham Reis….

    Comentário por Roberto Nunes — janeiro 10, 2009 @ 1:07 pm

  2. Livro já!!!!!!!!!!!!!!!!

    Comentário por Cristina Almeida — janeiro 10, 2009 @ 2:40 pm

  3. Derley tá fumando crack?

    O.o

    Comentário por Débora — janeiro 12, 2009 @ 2:10 pm

  4. eu não estou fumando crack!!

    Comentário por derley — janeiro 12, 2009 @ 2:26 pm

  5. Adiante aí, seu Secretário… que as panelas e cuecas logo vão acabar, e precisaremos dessa grana pra manter o(s) vício(s) do rapaz!

    Comentário por Deilson Pessoa — janeiro 12, 2009 @ 3:00 pm

  6. “Alguma beberagem”? Hahahaha… Belos textos, meu caro. Assim como bebida e vivência engrossam voz e dedos de um bom músico de blues (“Não acredito num bluesman de 17 anos”, diria Nazi), sua escrita une boas referências a originalidade. Num tempo de dândis eufóricos por aparecer (e com textos ruins), uma grata alegria. Abraço.

    Comentário por Hermelino — janeiro 13, 2009 @ 12:25 pm

  7. Os professores e os assessores agradecem, um olhar diferenciado sobre um tema tão polêmico. Vou postar no SINTESE, com sua permissão.

    Comentário por Diego Oliveira — janeiro 14, 2009 @ 4:28 pm

  8. Adorei o texto e a abordagem.

    Comentário por Pollyana — janeiro 16, 2009 @ 12:12 am


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