Spleen e charutos

janeiro 3, 2009

A sarna da palavra

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 4:14 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

A expressão foi tomada a Machado de Assis. Fosse o escriba um pouco menos prolixo, e não diria mais nada. Ocorre que o leitor possui caprichos de criança. Bate o pé, grita e chora se não recebe a metáfora mastigada. É preciso lembrar, portanto, que a sarna não possui dentes. De qualquer modo os enterra mais fundo do que o exercício despreocupado que muitos atribuem ao culto da palavra.

Uma vez por ano, ignoro as dentadas. Nessas últimas férias, li um pouquinho, bebi um bocado e aprendi a jogar truco. Nenhuma atenção dispensada à sarna da palavra. Deitado numa rede velha, entre cartas de baralho e garrafas vazias, acolhi uma legião de quatro leitores inconformados. Todos reclamaram o lirismo afetado do cronista. Dois foram mais longe e acusaram a motivação capitalista que me anima a pena, como se eu trouxesse no bolso quantia superior a dois tostões furados.

Trabalho sem alegria para um mundo caduco. Não sei a quem me desculpar pela honestidade. Feito macaco ensinado, aceitei alegremente o personagem literário que me imputaram. Agora recebo, anônimo na rua, a paga por esse destino ordinário.

O sol doira sem literatura. Duvidas? Então abre as janelas do quarto. Imagina que além dos telhados que protegem sua vizinha há outros telhados, e por trás destes, mais telhados ainda. No final do mundo, em seu extremo mais distante, nenhum rascunho, nenhuma página pintada, praia imensa sem a mácula de pegada.

Não me prestem mais atenção do que as traças que se alimentam de suas estantes. As empresas não se movem pela poeira deitada sobre as máquinas quebradas. O que aqui vai escrito, o testemunho apaixonado de um pedaço de carne fustigado, não pretende revelar nenhuma verdade. O que aqui vai escrito não passa de reação mecânica à irritação provocada pela sarna da palavra.

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4 Comentários »

  1. Caro Rian, continue a escrever….o truco não é sua praia….

    Roberto

    Comentário por Roberto Nunes — janeiro 3, 2009 @ 2:13 pm

  2. debaixo de cada telhado, há um mundo. comé que você pode certeza do que há sob cada um deles? prosa e poesia existem em qualquer lugar. seja escrita ou não. só que aqui, embaixo desse telhado há. então escreva logo essa porra e deixe de choramingo.

    ¬¬

    e se não fosse pelos que reclamam vc não teria seu ganha pão. ou estou errada?
    #)

    Comentário por Débora — janeiro 3, 2009 @ 5:21 pm

  3. Caro Rian,

    Nunca abandone o lirismo. As palavras do coração são as que mais valem. Uma pitadinha de lirismo e poesia sempre é bom. Não achas?

    Comentário por André Gusmão, Lisboa-Portugal — janeiro 4, 2009 @ 12:43 am

  4. Como um pouco de afastamento da rotina e câimbras intelectuais fazem bem a esse rapaz. Depois das férias as indagações e encruzilhadas a que você se submete, meu amigo ovíparo, só fazem de suas busca pela rima perfeita mais interessante. Bem vindo À rotina!

    Comentário por Diego Oliveira — janeiro 6, 2009 @ 11:55 am


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