Spleen e charutos

dezembro 11, 2008

O homem por trás do Cine Cult

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 10:45 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

E ainda há quem me julgue preguiçoso…

Intimado por Roberto Nunes, o produtor cultural responsável pelas exibições do Cine Cult, este escriba abriu um pequeno parêntese em suas férias e, numa conversa regada a muita cerveja e algumas doses de uísque (porque ninguém é obrigado a digerir sem o auxílio de um aperitivo), tentou entender como o principal circuito de cinema independente do país é administrado a partir de nossa província. Nos últimos anos, o Cine Cult ignorou as fronteiras de Aracaju e conquistou quinze capitais brasileiras, sempre amparado por uma programação diferenciada, que privilegia o cinema de autor em detrimento do entretenimento puro e simples.

“Um filme pode mudar a vida de uma pessoa. Tem muita gente que procura o cinema como quem toma um analgésico. Eu prefiro acreditar nele como um agente transformador”.

Reconstruir a trajetória vitoriosa do Cine Cult exige algum esforço. Roberto Nunes é daqueles seres que carregam uma vocação cigana enterrada na barriga. Nascido numa das menores cidades do interior paulista, encontrou o cinema somente em Campinas, onde, entre incontáveis idas e vindas, foi estudar educação física. Depois de ver “O encouraçado Potemkin”, abrigado por um cineclube, iniciou o namoro.

“Os cineclubes são fundamentais na formação do cinéfilo. Muita gente boa ligada ao meio é cria dessa maneira privilegiada de refletir sobre o cinema. Infelizmente, hoje em dia, determinados setores reduziram o cineclube a um ambiente de aparelhamento ideológico, fizeram dele um simples meio de vida”.

Roberto sabe do que fala. Depois da relação inicial de esteta com a sétima arte, se aventurou na fundação de seu próprio cineclube, com exibições e discussões semanais na cantina da Unesp. “Como a faculdade não tinha cineclube, eu decidi criar um. Os filmes eram exibidos em um pano que a gente esticava pra servir de tela. Isso foi muito importante pra minha formação. Tem muita gente que fala de cinema, mas nunca carregou um projetor nas costas”.

A idéia deu tão certo que o cineclube foi obrigado a deixar o campus da Unesp e migrar para um cinema no centro da cidade. Com a última sessão das quartas-feiras alugadas, Roberto exibiu clássicos como “A voz da lua”, de Fellini, que inaugurou a nova etapa do projeto e uma relação mais estreita com as distribuidoras. “Eu viajava de ônibus para São Paulo e voltava com a cópia do filme na mão”.

Cansado de trabalhar para os outros ou na construtora da família, Roberto tomou um impulso empreendedor e começou a realizar uma sessão especial nos moldes do Cine Cult num multiplex localizado no maior shopping de Bauru. Ao mesmo tempo em que a iniciativa deu maior visibilidade ao projeto, proporcionou o enfrentamento com a dura realidade do circuito exibidor mundial. “Num shopping, o cinema é apenas mais um produto. O público se comporta como se estivesse num supermercado”.

Foi devido a circunstâncias pessoais (sua esposa foi aprovada em um concurso em Aracaju) que Roberto Nunes veio dar com os pés aqui. Ainda no Moviecom, deu início ao projeto Cinema de Arte, que inaugurou em 12 de junho de 2004, numa sessão histórica com a exibição de “Dogville”. Problemas operacionais obrigaram Roberto a procurar o Cinemark, que se tornou um verdadeiro parceiro do Cine Cult e propôs a sua expansão para outras praças do país. Desde então, o projeto vem acumulando conquistas, como a realização de mostras temáticas, debates com alguns dos principais personagens do audiovisual brasileiro, e a realização da Virada Cinematográfica Cine Cult (ver matéria sobre a terceira edição abaixo), uma sessão especial formada pela exibição consecutiva de três filmes numa madrugada coroada com um café da manhã servido aos sobreviventes.

De acordo com Roberto, no entanto, as maiores conquistas não podem ser mensuradas. “Me lembro de uma senhora negra, muito velha, que depois de uma sessão gratuita, realizada especialmente para idosos, me agradeceu a oportunidade de ver um filme pela primeira vez em sua vida. Ela acreditava que morreria sem jamais entrar num cinema”.

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1 Comentário »

  1. Perdi a conta de quantos filmes maravilhosos pude assistir através do Cine Cult! O último deles foi ‘Estômago’, extremamente surpreendente! Parabéns, Roberto, pela iniciativa e pela força e coragem em continuar com o projeto!

    Beijos lusitanos,
    Rita Brasileiro

    Comentário por André Gusmão, Lisboa-Portugal — dezembro 15, 2008 @ 11:34 pm


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