Spleen e charutos

novembro 29, 2008

Uma crônica de natal desnaturada

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:00 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Todo dezembro é a mesma coisa. Com a benção de Getúlio Vargas e Elenilton Pereira, coloco o rabo entre as pernas e acomodo o verbo num leito escuro, longe da vista e da impaciência alheia. Não que minha preta tenha reclamado de alguma indisposição, mas a verdade é que depois de um ano inteiro de redações, percebo a pena um tanto fatigada.

Os mais atentos devem ter notado. As metáforas exaustas, enfastiadas, aborrecidas. Os períodos costurados com lassidão. Um movimento um pouco mais brusco, e o cerzido do texto se desmantela na banca de revistas – o cronista desprevenido, a cueca furada no alto da coluna, sem manchete ou chamada na primeira página que lhe resguarde as nojeiras do pensamento.

Ano passado, me despedi do leitor protestando a fadiga: Essa peleja madrasta, retirante no encalço de um nervo bandido, bota a gente cansado como se não tivesse casa. Agora, vou além. O que vai escrito diz muito dos efeitos perversos provocados pelo exercício da razão, mas não menciona, nem de passagem, a minha cisma com o período natalino, causa maior desse divórcio temporâneo de puta arrependida.

Santa Claus não cansa de me surpreender. Como se não bastassem as reuniões de fim de ano, as frutas cristalizadas, os desentendimentos socados no peru, essa comédia grotesca ganhou a mácula de quatro mortes desnecessárias. Além de um monte de luzes intermitentes, vitrines coloridas e neves de algodão, fomos agraciados com um gigante partido, o peso de nossa vaidade sobre quatro cadáveres miseráveis.

É possível que a maior parte da população lamente a tragédia com os olhos órfãos do colosso. De minha parte, não tenho mais o que ver. Quarenta andares de negligência esmagaram minha visão. Se a alguém incomodar o meu desterro, segue um conselho. Me procure entre os escombros do gigante, numa dobra da consciência, na fresta de uma porta esquecida. Você vai ver que, apesar da felicidade de muitos, eu não estou indo embora. Preparo a hora de voltar…

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2 Comentários »

  1. Bom, eu até entendo o seu desgosto com os festejos de final de ano e a forma como a vaidade causou a morte de 4 pessoas. Mas ainda acredito que essas festas de final de ano são rituais. E que vaidade sempre existiu e sempre existirá. Quer frustração maior do que você se esforçar para mostrar seu esforço em fazer qq coisa e ninguém dá a mínima pra isso? Ficar triste ou chateado é vaidade não alimentada.

    Agora eu vi aí você falando do fastio que vem tomando conta de você na hora de escrever. Lembra que eu falei um dia que textos com sentimento brotam e aqueles por obrigação a gente tem que parir? É bem por aí.

    :*

    Comentário por Débora — novembro 29, 2008 @ 3:08 pm

  2. suas férias são desculpa até para a preguiça literária.. aff. tomara que vc enrabuje e não consiga mais escrever..

    :~

    Comentário por Débora Andrade — dezembro 8, 2008 @ 6:38 pm


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