Spleen e charutos

novembro 6, 2008

Tanto calor (a vizinha do andar inferior)

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:12 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Se as mulheres arrancassem a roupa no meio da rua, algum propósito haveria em tanto calor. Ao invés disso, transpiramos abotoados, os colarinhos empapados em gastura. Nada de línguas aliviando a carne suada, comercial de cerveja na televisão. Nada do carnaval desenhado nos mapas equivocados dos estrangeiros. Aqui, como no resto do mundo, a fornicação corre solta, mas por baixo dos panos, atenta aos preceitos da boa educação.

Não existe pecado ao sul do equador. Nem por isso é permitido ao cronista mandar tudo ao diabo, obediente ao ligeiro das frases alimentadas na imundície de suas convicções. É preciso ter modos, observar o vocabulário, respeitar os pudores aconchegados nos ouvidos do leitor. Parece absurdo, mas ainda há quem se impressione com a grafia de um termo chulo, e responda ao registro ordinário com um monte de palavrões.

Nisso, me solidarizo com a vizinha do andar inferior. Depois de não sei quantos meses de seca, a mocinha finalmente encontrou um homem pra chamar de seu. E, durante umas duas semanas, o fez com toda a força dos pulmões. O problema é que a paixão, os sortudos sabem, não tem muito cuidado com o que lhe sai da boca. Embalada por uma sede sertaneja, a danada galopava as madrugadas numa sela de imprecações amorosas digna da mais laboriosa filha de Afrodite. Até que algum mal amado deu queixa e acabou com a brincadeira, rancoroso dos calos na mão. Intimada a amar em silêncio, baixinho como quem lamenta uma prece, minha vizinha descuidou do fogo que a animava, e se acalmou.

Não gosto de minhas camisas molhadas de suor. Não me agrada cometer três banhos num único dia. Os cabelos constantemente lavados, a cueca encharcada, é tudo contingência do calor. Se ao leitor incomoda a grosseria de minhas palavras, recomendo as declarações dos homens públicos e os sermões do Padre Antônio Vieira. “São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito”.

Me recuso a amar comedido.

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3 Comentários »

  1. …E por mais que sejamos pecadores, não há nada mais sagrado do que o nosso desejo…

    Comentário por André Gusmão, Lisboa-Portugal — novembro 11, 2008 @ 12:41 pm

  2. Gostei muito do seu blog…
    Vou visitar sempre!

    Comentário por Pollyana — novembro 12, 2008 @ 5:40 pm

  3. Rapaz, é complicado gente narrando foda que nem jogo de futebol…

    Comentário por Débora — novembro 12, 2008 @ 11:54 pm


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