Spleen e charutos

outubro 24, 2008

Blues é coisa de fodido

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:12 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Ao entabular conversa com Julico, um desavisado pode ficar com a impressão de ter entrado numa sala de aula. Entre citações a blueseiros das antigas e personagens mais recentes, que enfrentam as adversidades desses dias cinzentos honrando o legado de Robert Johnson, o frontman da banda The Baggios deixa transparecer a paixão pela música e a seriedade com que encara seu ofício. Tanto sentimento, no entanto, não garante a felicidade de ninguém. Prova disso, ao chegar em minha casa para passarmos essa história a limpo, Julico trazia o semblante cansado. Passar as noites exorcizando fantasmas nas cordas de uma guitarra não o livra de pegar firme no batente, no outro dia.

“As coisas estão acontecendo num ritmo bacana para a The Baggios. Nós conquistamos um público fiel, ocupamos os espaços existentes… Mas Aracaju já foi explorada, já deu o retorno que poderia dar pra gente”.

Essa vontade de pegar o trem, cair na estrada, carregar a vida numa sacola, acompanha Julico há algum tempo. Nascido na histórica São Cristóvão, o garoto talentoso, que aprendeu a tocar violão de farra, ouvindo os discos do Nirvana, convive desde cedo com um horizonte limitado, próprio das cidades pequenas. Segundo ele, a alegada riqueza cultural da quarta cidade mais antiga do país não se estende muito além dos casarões do centro histórico.

“Eu sempre me senti preso. A única coisa que existe pra fazer em São Cristóvão é sentar na mesa de um bar. A cidade não oferece opções de lazer ou qualquer outra ocupação. Até pra trabalhar a gente se vê obrigado a cair fora”.

Pode parecer exagero de adolescente, mas a sensação era tão opressora que o primeiro disco da Baggios foi completamente impregnado pelo confinamento. Na época em que conheci a banda, por meio de Diego Oliveira, um jornalista amigo que se empenhava na gravação de um documentário sobre o personagem que inspirou os fundadores da banda, escrevi uma crônica emocionada em minha coluna domingueira no Jornal do Dia.

“Mente vazia é morada do diabo, e eram tão raras as oportunidades de pecado que não me restava muito a fazer, além de acalentar nojeiras em pensamento. Era como se eu morasse em São Cristóvão, dedilhasse uma guitarra tosca e ruminasse as aventuras de um doido chamado Baggio. Cantam os anos da juventude como uma proeza de cavalaria, campos e moinhos de vento, um desafio na curva de cada esquina, mas o início de minha adolescência foi condenado a quatro paredes de rotina. É essa energia contida, confinada nos limites bem definidos da paisagem de todos os dias, que encontramos no trabalho da banda The Baggios”.

A The Baggios ainda não pegou um punga, ocupando o vagão ocioso de um trem, mas, depois de conquistar a cena local, começa a ensaiar passadas um pouco mais largas. Nos próximos dias, a banda fará duas importantes apresentações longe de casa. A primeira será realizada no encerramento do Perro Loco, um festival de cinema que ocorre anualmente em Goiás (onde o documentário Baggio Sedado, citado anteriormente, será exibido). A segunda apresentação está marcada para o dia 15 de novembro, quando ao lado de revelações nacionais como Vanguart e Malu Magalhães, a The Baggios ocupará o palco de uma Feira de música em Salvador.

O reconhecimento, no entanto, parece não ter dado muito jeito na cabeça de Julico, que conserva as suas convicções e talvez as arraste pro túmulo. Isso explica o batismo do EP Hard Times, que acaba de ser lançado, o universo denso de todas as suas composições e a frase que resume toda a nossa conversa. “Blues é coisa de fodido”.

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4 Comentários »

  1. Comentário do jornalista Diego Oliveira, diretor do documentário Baggio Sedado, que errou de janela mas sabe bem do que está falando. Hey, ho, let’s go!

    Apressado em ritmo de blog me bate uma angústia ao perceber que a história da The Baggios ainda foi contada, e provavelmente só o seja bem longe daqui. Ironicamente talvez seja essa a onda desse cara líricamente anormal chamado Julio Andrade, carregando o legado de ser um dos resistentes da cena cultural da pacata São Cristóvão.

    Que vá embora man, e alcance fora daqui o que vc realmente merecem, respeito, dinheiro e mulheres!!

    Comentário por spleencharutos — outubro 24, 2008 @ 3:36 pm

  2. Rian!!!
    Como sempre, meu querido, excelente e coerente texto! Fiquei surpresa também quando, displicentemente, entrevistei o Julico no extinto Papo de Brasileiro! Que rapazinho inteligente, estudado e coerente! Além de colocar muita alma no som que faz! Fico mais que feliz em saber dessas apresentações fora de Aracaju! Espero mesmo que sejam as primeiras de várias e várias outras!! E que, principalmente, possam dar um alento à esperança de reconhecimento da The Baggios!! Sucesso, Baggios!!

    Comentário por Rita Brasileiro — outubro 24, 2008 @ 10:24 pm

  3. pode parecer besteira, mas enquanto as pessoas pensarem que sucesso só fora daqui e não investirem e nem lutarem para que a cena aqui cresca, lamentos e lamentos vão ser constantes em sergipe del rey.

    é ruim sim, ver que o mundo em que se vive é limitado, mas as pessoas costumam sempre pensar que a grama do vizinho é sempre mais verde. claro, ng investe na sua, fazer o que, né?

    não estou criticando o rapaz, nem tirando os méritos de sua música. o problema td que eu vejo em pessoas que choram miséria demais – e eu me incluo nesse bololô – é que pegar o trem andando é muito mais fácil do que construir um e ir para onde bem quiser.

    Comentário por Débora Andrade — outubro 25, 2008 @ 6:31 pm

  4. e eu como eu já lhe disse uma vez: “blues é música para foder”.
    hahaha!
    XD

    Comentário por Débora Andrade — outubro 25, 2008 @ 6:32 pm


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