Spleen e charutos

outubro 18, 2008

Roleta russa

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 5:11 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Não deve ser muito parecido com a Roda da Fortuna. Na maioria das vezes, há mais do que fichas coloridas sobre a mesa de apostas. Um coração apunhalado, os cadarços de um coturno nos pés descalços da vontade, qualquer contratempo é suficiente pra convencer um idiota a empenhar os miolos numa disputa contra a sorte.

O Estado adoeceu, as feridas se espalham por toda parte. Nem por isso é preciso jogar a vida de todo mundo num pano de veludo verde. Os dados, as cartas, a solidão do projétil no carrossel desgovernado do tambor, não carregam a mesma dose de lirismo quando podem determinar o destino de um amigo. Desafio meu leitor mais estúpido a comemorar uma trinca de valetes ciente de que o pescoço de sua genitora prende um corpo inerte à justiça oscilante da corda.

Não é a primeira vez que um membro do governo Marcelo Déda responde de maneira infeliz aos protestos da sociedade. O próprio governador já fez circular uma nota respaldando a ação truculenta da Polícia Militar no cumprimento de uma ordem judicial que determinava a desocupação de uma propriedade do Estado. A recente declaração de seu Secretário da Saúde, no entanto, ainda surpreende.

Ao afirmar que a irreparável perda de uma vida humana por falta de cuidados médicos é normal, o secretário Rogério Carvalho não feriu somente o Juramento de Hipócrates, mas também a confiança de milhares de sergipanos. Se dezenas de pacientes terminais empilhados de qualquer modo nos corredores de uma unidade de saúde não configurar uma situação de atendimento precária, não sei mais como definir uma calamidade.

Ninguém aposta o próprio rabo na roleta. Não existe par ou ímpar, zerinho ou um, casas pretas ou vermelhas, quando se trata de tirar o cu da reta. Ao atirar aquelas palavras desastradas no tabuleiro, o secretário Rogério Carvalho talvez tenha acionado o único gatilho capaz de acabar com a brincadeira.

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2 Comentários »

  1. Engraçado é quando alguém imporante, do próprio governo fica doente. Para os hospitais públicos é que eles não vão. Só vejo nas noticias dos jornais: “Secretário Fulano de Tal vai à Sâo Paulo, para se tratar de câncer”.

    Ainda me repreendem quando eu digo que gasto um terço do meu salario do estagio num plano de saúde. Medo de morrer, eu não tenho não. O medo que eu tenho é de não conseguir “partir dessa pra melhor” e ficar prostrada numa maca no meio do povão sem ter nem o direito de agonizar em paz.

    Comentário por Débora — outubro 18, 2008 @ 10:10 pm

  2. Apressado em ritmo de blog me bate uma angústia ao perceber que a história da The Baggios ainda foi contada, e provavelmente só o seja bem longe daqui. Ironicamente talvez seja essa a onda desse cara líricamente anormal chamado Julio Andrade, carregando o legado de ser um dos resistentes da cena cultural da pacata São Cristóvão.

    Que vá embora man, e alcance fora daqui o que vc realmente merecem, respeito, dinheiro e mulheres!!

    Comentário por Diego Oliveira — outubro 24, 2008 @ 1:22 pm


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