Spleen e charutos

outubro 8, 2008

A crítica ruim se responde com música boa

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:38 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Já era perto de meio dia quando este escriba encontrou o cantor e compositor Deilson Pessoa no restaurante do sanfoneiro Zé Américo, no mercado central de Aracaju. Não foi a primeira vez que nos sentamos, ali mesmo, para falar besteira entornando dúzias de cervejas, mas dessa vez era diferente. Há poucos dias, um pretenso crítico musical, que conquistou notoriedade distribuindo sentenças escandalosas num semanário da cidade, havia esculhambado Súbito E-feito, CD de estréia de Pessoa. Eu estava ansioso, e não consegui disfarçar por muito tempo. Ainda assim, precisei esperar alguns goles para avaliar o quão fundo meu amigo havia sentido o golpe. “Não perdi nem uma noite de sono”, respondeu ao meu olhar de inquisidor. Horas depois, no entanto, sua namorada me apresentaria uma versão diferente.

Assunto recorrente em nossas conversas, discussões de quem acompanha o cenário musical de Aracaju com ouvidos atentos, o trabalho do pretenso crítico nunca foi bem avaliado em nossa turma. Embora reconhecesse todos os problemas de seu texto, eu era dos poucos que ainda não havia condenado o jovem estudante de comunicação social, preferindo abandonar a sentença nas mãos do tempo ou da história, o que nos alcançasse primeiro. Pessoa, ao contrário, tornou sua opinião pública em artigo publicado no próprio semanário. “Um inconveniente rapaz de texto pavão e conteúdo galinha” resumia, na época, sua opinião a respeito do colunista. “Se tivesse deixado para me manifestar sobre o assunto depois de ter sido atacado, certamente não conseguiria expor minhas impressões de maneira adequada”, reconheceu depois de mais alguns goles.

O exercício crítico, no entanto, sempre mereceu o respeito do compositor. “Importa que a música sergipana há muito necessita de balizadores que se interponham à falta de autocrítica de seus representantes quando assim for, ou que sirvam de estímulo ao pensamento musical, um óleo que lubrifica a engrenagem. A própria imprensa cultural omitiu-se de seu papel, deixando a lacuna aberta por anos a fio”.

Mamãe não reclama das melodias

Essa não foi a primeira vez em que Deilson Pessoa emprestou sua lucidez à imprensa sergipana. Finalista da última edição do Sescanção, quando defendeu a música Maria Augusta, o compositor não se furtou a tomar parte na polêmica que envolveu a divulgação de seu resultado, e aproveitou a oportunidade para ir além, expondo as incoerências do evento.

“No rosto de nossos cidadãos não temos papagaios, não temos cajus que justifiquem tamanha obsessão por temas perseguidos de maneira impositiva a toda composição a que é dada relevância em nosso festivais”, escreveu em artigo publicado no Jornal do Dia, sem medo de magoar os sentimentos de André Gusmão, nosso amigo pessoal, então coordenador do Sescanção.

Pessoa falou com propriedade, pois é filho dos festivais. Foi depois de sua participação no Novo Canto, em 89, que o menino decidiu se dedicar a essa tarefa ingrata de emprestar seus nervos à sensibilidade alheia. Na época, já chamava atenção sua intimidade com a palavra, o que levou o produtor Jorge Lins, um dos jurados do Festival, a lamentar a desclassificação de Náufragos, uma das primeiras composições de Pessoa. Reconhecido a esse momento, ele faz questão de lembrar. “Ninguém pode roubar as atribuições dos festivais”.

Mais tarde, brincando com a insistência com que chamo atenção para a veia poética que atraiu a atenção de Jorge Lins, Pessoa ironiza. “As letras são boas, mas mamãe não reclama das melodias”.


Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e não posso pegar

É com o mesmo olhar perscrutador do compositor que desvela tudo que Pessoa tira a vista das pernas brancas de uma turista que desfila entre os artesanatos do mercado e se volta para o passado, quando o nascimento de Ivan o obrigou a negligenciar suas ambições musicais para garantir a realização dos sonhos de seu primeiro filho. “Eu precisava ganhar dinheiro. O nascimento de Ivan, a minha maior paixão, me transformou em um cara pacato. O compositor é tudo, menos um cara pacato”.

O hiato duraria mais de uma década, período durante o qual Pessoa tratou de ganhar a vida, pegando o violão em momentos esporádicos, somente quando sua natureza de compositor encontrava uma brecha na couraça do chefe de família e convidava o menino que montou a banda Verve para conversar. “Me distanciar da música me causava um vazio muito grande. Depois de muito tempo fui obrigado a reconhecer que a música fazia parte de minha realização pessoal”.

Foi então que reuniu as composições que aguardavam dentro da gaveta e tratou de correr atrás do tempo perdido. Para tanto, reuniu alguns dos melhores músicos da cidade (entre os quais se encontram Júlio Rego, Aragão da Naurêa, e Saulo Ferreira, guitarrista da Maria Scombona, um verdadeiro virtuose das seis cordas) e se dedicou, num processo lento e cuidadoso, a registrar suas composições no estúdio Caranguejo Records.

Súbito E-feito (com o rabo voltado para a lua)

Com o disco gravado, e com o incentivo de alguns dos nomes mais festejados do cenário local, agora Pessoa se empenha em sua divulgação. Se a facilidade com que ele vem circulando nos meios musicais de Aracaju é um problema para alguns, levando-os a deduzir que o compositor nasceu com o rabo voltado para a lua, é coisa que talvez nem Freud possa explicar. Quem acompanhou o processo de gravação de seu primeiro e inspirado disco, sua peleja para classificar uma música na final do Sescanção depois de reiteradas tentativas, o capital monetário e humano empregado na realização de seu sonho, sabe que o simples reconhecimento de seus pares não passa de um merecido prêmio de consolação.

Tanta coisa prescinde da fala...

Tanta coisa prescinde da fala...

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2 Comentários »

  1. Escutar música sergipana é um alento que eu e a Rita não dispensaremos nunca. Deilson, Ivan, Scombona, Karva, Fontineli e tantos outros enchem a nossa algibeira musical de talento e cultura. Que o diga o Sescanção, evento que me ensinou e me apresentou essa “metralhada” música de Sergipe. Quanto ao Igor Matheus? Vou arrumar um estágio (não remunerado!!!) pra ele láááá em Angola. Com certeza ele entende muito bem de semba e kazukuta, né Calango?

    Comentário por André Gusmão, Lisboa-Portugal — outubro 9, 2008 @ 1:09 pm

  2. Por mim, ele fica falando besteira onde achar mais proveitoso, mas de minha parte vai ser premiado com um silêncio de estourar os tímpanos. Na verdade, acho que esse é outro aspecto da questão. Quem criou o monstro foram nossos músicos, que não souberam muito bem como reagir às ofensas do moleque. Nino Karva não precisava ter descido (descido muito, convenhamos) ao nível do guri e ficar trocando farpas com a criatura. Enfim, o tempo responde tudo!

    Comentário por spleencharutos — outubro 9, 2008 @ 1:15 pm


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