Spleen e charutos

outubro 3, 2008

Vou na rua e bebo a tempestade

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 11:05 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

As janelas de meu apartamento não enxergam a rua. Feito um roceiro aborrecido com a enxada, minhas janelas não se incomodam com o passeio, nem se comovem com os tropeços provocados pelos acidentes das calçadas. A um empresário, a vida inteira ocupado em contar dinheiro, tal distanciamento não causaria qualquer prejuízo. Para mim, no entanto, essa indiferença é dolorosa como uma retina podre – estilhaços de vidro nos olhos e uma pedra esquecida no canto da sala.

Entre quatro paredes eu não sirvo pra muita coisa. Calço os passos de um idoso e me arrasto na esperança de jogar açúcar no café amargo do dia. É do lado de fora, entre prédios e automóveis, na algazarra, que recolho os pedaços de papelão que garantem o meu sustento. Lambo a ferida aberta no coração da cidade, carrego os seus dejetos, mas não engulo a tinta negra que desenha o mundo em chamas na primeira página do jornal.

Outro dia, um amigo questionou a ausência de situações políticas em minhas crônicas mais recentes. Mas o que haveria para aproveitar numa eleição em que os principais candidatos caminham na sombra dos verdadeiros protagonistas do pleito? Por acaso alguém esperava que eu utilizasse as cordas das marionetes para improvisar uma melodia? Se houver quem me aponte alguma novidade no discurso desses senhores, juro que compro uma fantasia de Bob Dylan e declamo hinos reacionários aos pés da catedral.

São sempre os mesmo protestos. Mudança, renovação, ética e independência. É como se a simples menção a essas palavras estivesse dotada de uma habilidade mágica, capaz de tocar no mesmo instante um músculo adormecido no coração do eleitor. É como se há alguns anos ninguém morasse nessa cidade. Depois que a esquerda tomou conta do Estado, nós finalmente conhecemos o outro lado da moeda, e as diferenças que vislumbramos não justificam a oração apaixonada que os revolucionários nos empurraram por tanto tempo.

Minhas janelas podem estar cegas, mas a memória de meus calos, de meu calçado gasto, não é vencida facilmente. Não acompanhei a chuva grossa pelas câmera sonolentas do telejornal. Fui na rua, bebi a tempestade.

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1 Comentário »

  1. Fica no ar aquela ausência de malícia tão peculiar ao povo.

    Comentário por André Gusmão, Lisboa-Portugal — outubro 4, 2008 @ 1:13 am


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