Spleen e charutos

setembro 27, 2008

O homem da multidão

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:32 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Só acredito na criação vadia. Uma canção só é bem vinda quando estraga a sola dos sapatos antes de bater em minha porta. No chapéu cansado de sol, mais do que vestígio de calor, os poemas de carne e osso guardam a danação de muita estrada. Foi num desses tropeços fatigados que a música de Deilson Pessoa, catinguenta de tantos atalhos, deu com os pés aqui em casa. Poeira nos panos, calos nos olhos e os ombros arqueados, dobrados pela distância do caminho.

Asilo para os foragidos, narcótico para os abandonados, a multidão se transfigura muitas vezes em objeto e personagem. Embriagado de passeio, tragado pela cidade, Pessoa encontrou num dos tipos urbanos mais curiosos de Aracaju uma oportunidade singular para dialogar com a tradição poética inaugurada por Baudelaire na segunda metade do século XIX. Ao transformar “a véia do shopping” em alegoria lírica do consumismo contemporâneo, a canção Maria Augusta, terceira faixa de Súbito e-feito (disco de estréia do compositor, que acaba de ser lançado), reproduz os espaços de desesperança identificados pelo poeta na capital francesa de seus dias, ao tempo em que desafia o senso comum e aponta, onde todos observam somente o folclórico, a ferida encoberta pela tinta na cara do palhaço.

Com lembranças mais pesadas do que socos, Baudelaire aprisionou a desorientação provocada pelo mercado na incipiente sociedade de consumo parisiense. Produto de seu tempo, Pessoa realiza um inventário dos acidentes enterrados em seu próprio quintal. Se em Maria Augusta importa desmascarar o pitoresco e exibir o cancro disfarçado pelo Ray Ban pendurado no nariz da senhora, encarnação sorridente da maior de nossas lendas urbanas, o restante do disco risca as paredes de um apartamento afetivo, suspiros orgásticos e saudades, como a dançarina virtuosa que pendura o lençol na janela logo depois de uma bela trepada.

Experiências condenadas à forca de seis cordas armada sobre o violão de Pessoa, as canções de Súbito e-feito expiam os fantasmas do compositor e devolvem-nos às calçadas onde foram apanhados, explorando uma necessidade de afirmação ignorada pela maior parte de nossos conterrâneos. Com passadas e dedilhados, spleen e cigarrinhos de palha, nosso flâneur sertanejo permanece indiferente à parábola bíblica que adverte sobre os riscos de se doar sem distinção e insiste em colocar sua música no meio da rua. Como atesta a avaliação recente de um pretenso crítico musical, pérolas atiradas aos porcos, ocupados em chafurdar a lama.

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1 Comentário »

  1. Deilson é de facto um dos novos nomes da música que não só prometem, como já está a cumprir!

    Se puder da uma lida no meu ultimo texto!

    Comentário por André Gusmão, Lisboa-Portugal — outubro 3, 2008 @ 1:12 pm


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