Spleen e charutos

setembro 20, 2008

Não quero quebrar os bares como um vândalo

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:45 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O passado é pegada que ninguém apaga, a primeira letra de um nome desenhada a ferro e fogo no tecido apaixonado de um braço. Quando a mocinha vai embora, a caligrafia atropelada num bilhete de fugitivo, o sujeito pensa em meio mundo de besteira, considera a amputação do membro tatuado, mas depois se acalma e trata de encontrar uma desculpa, uma explicação menos ridícula para a cicatriz que denuncia o passo em falso.

Também já experimentei o amargo de uma topada. Redigi cartas desastradas, transformando sentimentos em exercício literário, e encerrei discussões dissolvendo romances no fundo de uma garrafa. É tão grande o ressentimento que só de pensar na casualidade de um encontro, ratoeira armada no ângulo escuro de uma esquina, sinto como se tivesse o corpo todo pintado, um alfabeto de amores inventados cobrindo minha carne de vergonha, as marcas da cadeia na desconfiança do condenado.

O tempo é senhor de todas as coisas. Quando leio as resenhas musicais publicadas por um semanário local, reflito sobre os resultados alcançados por meus malabarismos de cronista. Ao mesmo tempo em que fico lisonjeado com a gentileza complacente de Amaral Cavalcante, Célio Nunes, Luiz Antônio Barreto, Luciano Correia (vamos parar, antes que minha vaidade desgrace o resto do texto), me decepciono por não dialogar com minha própria geração.

Talvez por isso, a aparição de um personagem dedicado ao exercício crítico nessa terra amaldiçoada pela praga de um cacique me deu a impressão de estar menos sozinho. Eu observava os excessos cometidos pelo menino, ignorava o artifício de tantos adjetivos, esperando que a sua virulência cedesse lugar a uma percepção mais acurada de nossa realidade. Para minha infelicidade, no entanto, seu único compromisso parece ter uma relação estreita com a esculhambação, a primeira letra de um nome desenhada a ferro e fogo no braço de Igor Matheus.

Já houve quem comparasse meu trabalho ao do “crítico” em questão. Estavam equivocados. Não quero quebrar os bares como um vândalo. O grande escândalo sou eu, aqui, só.

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3 Comentários »

  1. sabe quando você acaba de ler alguma coisa e surge aquele risinho maroto no canto da boca. pois é.

    Comentário por Débora — setembro 20, 2008 @ 9:39 am

  2. O Passado, ah, o bendito passado! Há quem queira, terminantemente, se livrar dele, sem sucesso, é claro!

    Comentário por Rita Brasileiro — setembro 20, 2008 @ 1:20 pm

  3. O colunista Igor Matheus estaria para o jornalista e cronista Rian Santos como David Nasser está para Joel Silveira.
    O nome Rian Santos já se fez, sem sombra de dúvidas, a ponte que interliga o legado dos grandes artesãos da imprensa sergipana às mãos das novas gerações herdeiras, e é evidente que Matheus não a cruza.

    Comentário por Deilson Pessoa — setembro 22, 2008 @ 2:48 pm


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