Spleen e charutos

setembro 13, 2008

Por cima da borboleta

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:53 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Eu preciso de doze badaladas pra começar a escrever. Preciso que o sino da catedral, num único parto, expulse doze filhos do útero chumbado. Ante o ganido metálico da meia-noite, as criaturas do centro – os travecos da Rua da Frente, os bêbados e as pedras do calçadão – respiram avisadas de que o escriba iniciou sua redação.

Se eu pudesse, reunia num verso todos os vencidos do mundo. Heróis de calçados rotos, roubados a Baudelaire, e donzelas de cotovelo arrombado. Não, ele não vai voltar, nem que você finalmente conceda a graça opulenta de seu rabo. Mesmo sob juras renovadas de amor e carinho, ainda que você ameace um salto dessa besteira de três andares, ele permanecerá irredutível, enquanto seus cabelos despencam com um resto de orgulho, as raízes roídas por pensamentos de vingança.

Escrevo, e somente assim me defino. Mas, abaixo de minha janela, uma procissão de poetas desprovidos de senso desfila com metáforas colegiais encardindo os sobacos. Vaidosos de cabelos brancos, meninos ansiosos, doidos pra manchar um monte de páginas com o próprio nome, esquecem a vergonha numa rima torta e perdem as noites sonhando com o aplauso duvidoso das traças que violentam a verdadeira literatura em sebos empoeirados. Ao contrário deles, no entanto, Neruda não merece a fome amnésica dos insetos.

De minha parte, encaro a pretensão dos idiotas como uma afronta ao ofício de Amaral Cavalcante, e se continuo cuspindo meu verbo no meio da rua é porque não considero essa bobagem grande coisa. Não quero ascender, feito a maioria. Não pretendo virar gente. A cada despejo guardo menos pra mim. Quem sabe se no final, quando não tiver mais nada, não encontro na abnegação do caneco estendido a peleja que intuitivamente orientou minha devoção?

Eu sou como aquele menino ressabiado, esquecido no último assento do coletivo. Sujo e liberto como somente a miséria, o salto por cima da borboleta, permite. Não me venham com cobranças de lirismo, protestos de clareza, a fatura nervosa queimando a palma da mão. A bodega está fechada para qualquer tipo de queixa. Vendi a alma e as cuecas furadas para descobrir que no sacerdócio ingrato da palavra não existe possibilidade de redenção.

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1 Comentário »

  1. Cada vez mais comum os ‘idiotas’ que enveredam pelo ofício jornalístico com a pretensão de virar gente…

    Comentário por Rita Brasileiro — setembro 20, 2008 @ 1:18 pm


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