Spleen e charutos

agosto 30, 2008

Trabalho negro

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 2:54 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Embrutecido como um escravo, ando a cidade sequioso de fortunas. Carrego dentes estragados pela natureza das pedras, um resto de vontade fustigado pelo fumo. Cego pra tudo o que não brilha, violo o ventre da terra e perturbo as entranhas do universo com uma ansiedade de gatuno. Do muito que não tenho, empresto um pouco a essa fome. Do tanto que não vivo, emprego parte na empreitada. Extraído o minério, respiro superfícies com os pulmões envenenados, e a despeito dos bolsos pesados, cheios de cobre, me reconheço miserável como no dia de meu primeiro grito.

Eu poderia batizar minha cobiça com nomes diferentes, enfeitá-la de formas variadas. Mas os disfarces não ocultariam a qualidade vulgar de empresa tão escandalosa. No final das contas, tudo não passa de uma corrida desembestada em direção ao dinheiro fácil. Por essa paixão ferruginosa, as bandeiras desfraldadas na porta de casa. Em nome de seu reflexo dourado, protestos ideológicos e ameaças veladas na televisão.

Não fosse a esperança dos tesouros há muito enterrados pelas oligarquias, convites reservados e privilégios adquiridos, eu abandonava o rangido inseguro dos palanques e tratava de ganhar a vida trabalhando, como todo mundo. Mas de um modo impreciso, o aborrecimento das promessas, essa besteira sem tamanho, se transformou no meu ofício. Desde então, feito um coveiro extravagante, rasgo covas nos caminhos nublados de minha mão e sepulto idéias nobres em alturas egoístas.

Escravos somos todos, eu e essa horda de aventureiros que joga o nome nas ruas como quem busca Eldorado, fantasia de delícias e riquezas sem fim. Sob os olhos ausentes de Deus, açoitamos nossos nervos cansados e reviramos todas as pedras que podem esconder a promessa licenciosa do alarde e do desperdício. Por ela, as siglas esvaziadas, os embates particulares, e as caminhadas que não levam a lugar algum.

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1 Comentário »

  1. é melhor abrir um boteco!

    hehehehe

    xero!

    Comentário por Rita Brasileiro — agosto 31, 2008 @ 10:09 pm


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