Spleen e charutos

agosto 23, 2008

Domingo

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 6:27 am

Rian Santos
riansatos@jornaldodiase.com.br

Não espere que eu me despeça antes de bater a porta. Não pedi licença pra mencionar meus pesadelos, nem direi adeus antes de ir embora. Quando você tentar me alcançar, as mãos ansiosas, perceberá apenas um perfume acre, vestígio oloroso das feridas que cultivei como flores no terreno abandonado de um domingo qualquer.

O azul pode inflamar paixões, incitando toda a gente a transpirar como uma bacante na algazarra do litoral; suas crianças podem se enfastiar com os brinquedos do feriado e adormecer languidamente no colo morno da mãe; mas se algum demônio malicioso lhe providenciar uma edição desse jornal, hoje não haverá descanso nem oração. As minhas úlceras, essas lacerações, estragarão o consolo do dia santo que você aguardou como um tolo, planejando se entregar à lassidão.

Talvez você seja um daqueles que corre a semana inteira, pernas apressadas de fugitivo, criminoso afetado por uma insólita aversão à própria cela. Pois eu sou o muro alto, a parede suja. Eu sou o ar pesado e o pinico cheio de merda que morderá seu corpo inteiro durante o regime austero da cadeia. Enclausurado, você pressente os murmúrios do oceano e atende infantilmente a um devaneio de liberdade. Mas também o mar está confinado, e encontra, no marulhar insistente de quantas ondas, uma faixa de areia branca ou obstáculo de pedra que lhe aplica o castigo mineral.

Também cultivei, um dia, a esperança besta de fugir. Deitar mulheres cortando laços, latifúndios cercados no vagão de um trem. Era tanta a fome de poeira, que eu nem me dei conta. Na fadiga de meus calçados gastos, os tremores que assombram as beatas nas igrejas, a mesma esperança grosseira que governa a mesa de um bar.

Infelizmente, quando você entender o significado de tudo isso – flores e palavras, deslumbramentos e orações –, o tempo já terá tomado o último fio de meus cabelos brancos. Restará, contudo, a fragrância dolorida da experiência, o testemunho dilacerado de uma existência que a ninguém caberá julgar.

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