Spleen e charutos

agosto 16, 2008

Manobras de amor no precipício

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:11 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Não conservo grande número de hábitos sensatos. Me agrada, por exemplo, atirar garrafas pra cima. Existe algo na gritaria do vidro encontrando o chão, uma alegria no reflexo da luz multiplicada em estilhaços, que me sugere um parentesco bastardo entre os cacos criados por esse impulso irresponsável e o ninho de folhas secas pendurado na árvore onde eu esquecia os pecados de minha infância.

Não passava de uma amoreira, mas governando nosso jardim, converteu-se depressa em uma promessa de nuvens. Naquele caminho de galhos impossíveis não havia nódoa mais rubra do que o suco das amoras. Essa frutinha de nada, grave e doce como um delito infantil, lavou com o próprio sangue os vestígios de meus primeiros crimes. Se eu beijei a boca de Paulinha diante de suas primas, condenando minha vizinha a passar as férias entre quatro paredes, foi porque a sombra da amoreira quis assim. Por causa das amoras, eu vadiava no telhado. Graças às amoras, a fumaça amarga dos cigarros.

Quando arrancaram a única vida pela qual já lamentei, me deixaram órfão de alturas. Hoje, bebo com afinco, com uma sede desconhecida por quem conservou os pés uma vida inteira em cima da terra. Nunca mais os degraus encharcados de seiva. Nunca mais um leito de gravetos sustentado no espaço. Obrigado a uma cruz de mesquinharias, largo o fardo no primeiro aborrecimento dos músculos, e abandono a sorte dos cristãos na lixeira da esquina. Vai, garrafa! E vê se traz lembrança do alto, éden de ventos selvagens onde nunca mais eu vou estar.

No outeiro dos meus dias, eu via os homens pequenos como uma cambada de anjos levianos, rumba angélica na cabeça de uma agulha. Eu via as meninas de calcinha dentro de casa, meninos roubando goiabas no quintal de Dona Maria. Eu via um pouco e sonhava outro tanto. Era fome de viração, apetite de tempestade. Agora, sem os brinquedos do furacão, não tenho outro remédio. Atiro garrafas pra cima – manobras de amor no buraco escuro do precipício.

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1 Comentário »

  1. “manobras de amor no buraco escuro do precipício”

    Só este nome já me valeu vários pensamentos sobre coisas que eu já vi e vivi. Pode parecer cretino, mas só em pensar nos cacos de vidro estilhaçados no chão, já me dá vontade de chorar.

    Mas como eu já lhe disse uma vez, eu não choro. Eu sou a reencarnação do Chuck Norris.

    :*

    Comentário por Débora Andrade — agosto 16, 2008 @ 3:57 pm


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