Spleen e charutos

agosto 2, 2008

Cartão postal

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:56 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Amar uma cidade é doloroso como provocar um aborto. É preciso estar sozinho e sem dinheiro. É preciso, antes de tudo, que a insônia morda o calcanhar da gente. Com o último cigarro agonizando no cinzeiro, restam ao farrapo privado de nicotina as artérias riscadas no mapa – alternativa de traços pontilhados, ansiedades e tentações. Quantos passos são necessários para alcançar o coração de uma paisagem? Quantas voltas o mundo precisa girar para um coitado aquietar sua danação? São perguntas que me faço, às vezes. Amanhecido, cacete lasso, o molambo errante engole um pedaço de pão dormido, expulsa na merda as pegadas insones, mas não se livra dos segredos compartilhados com o vento. É dessa intimidade miserável, nervos atentos aos rangidos do tempo, que nasce a estranha simpatia que sujeita o homem a um pedaço de chão.

Uma cidade é mais do que um conjunto de vielas e acidentes geográficos. Antes das cartas topográficas, pioneiros violam o solo intocado, romaria de sangue e sêmen, preparando o terreno para a fortuna de tantos descendentes. Não é somente como antítese à naftalina dos teatros que as meninas esfregam a virilha dançando forró nas madrugadas do subúrbio. Na fricção do músculo angustiado, a parcela que lhes cabe de delícia e de aflição. Por isso, por acoitar em ventres sujos de barro uma infinidade de veredas possíveis, os barracos pendurados nas encostas me atormentam como uma promessa de redenção.

Por baixo da sujeira abandonada pelos embates eleitorais, as ruas de minha cidade respiram penalizadas. Os panfletos largados ao vento, os discursos cuspidos a todo volume, as bandeiras, os aventureiros aboletados nos partidos ofendem minha lucidez e maltratam os caminhos do calçadão. Se nesse destino de pedra esfolo os joelhos, retribuindo com a gastura de meus nervos ao afeto recebido, é que aos donos de um lugar são exigidos sacrifícios. Não me anima a cobiça, como aos outros, nem velada aspiração.

Amar uma cidade é como jogar um feto no lixo. Nas tetas cheias de leite, noites perdidas inutilmente, passos sem sentido e afagos fugidos pra sempre.

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1 Comentário »

  1. Ainda não sei o que é amar essa cidade.. e mesmo assim é doloroso vê-la na sujeira (literal) das eleições – agora mesmo escuto os discursos que entram a todo volume pela janela do meu quarto enquanto sou obrigada a varrer os santinhos que deixaram embaixo da porta. Pra mim, sem afeto, ficam apenas os joelhos esfolados.

    Comentário por outra carol — agosto 3, 2008 @ 6:50 pm


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