Spleen e charutos

julho 19, 2008

O meu lugar

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:48 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Conheço bem o meu lugar. Sozinho, esfrego a barriga no balcão, atento ao sofrimento da mosca afogada no amarelo amargo da cerveja. Repleto de afagos, subo na mesa, braços abertos numa orgia de cinismos, trapo de circo satisfeito com o sorriso cravejado a pauladas no rosto deformado da platéia. O único motivo corre no sangue, apetite desabalado numa cruzada ensandecida pelas artérias. Sensível ao temperamento das estações, investigo os desejos desleixados do vento. Cuido das goteiras no apartamento, quando a isso me obriga o céu escuro, e passeio numa indolência de sandálias, quando o tempo se rasga num sorriso de pano azul. O caminho dos meus passos desenhado num mapa emotivo, enterrado no cemitério intransponível onde, exauridas, minhas células agonizam.

Não sei como chamar a coceira que então me anima. Sei que um gatilho dispara, e que é suficiente. Os desígnios voluntariosos do corpo determinam meu paradeiro. A ansiedade sufocada no corredor, se o caso é de nicotina; banheiro ou trecho de rua suspeito, quando as promessas da carne dançam lambada na ponte de meu cacete. Vítima obediente das circunstâncias, digo amém a todos os impulsos, e reconheço nos reflexos escravizados dos meus próprios membros a fatalidade inerente a minha condição humana.

Dei as costas e abandonei o secretário Rogério Carvalho falando sozinho. O universo conspirou para tanto. Pêlos crispados, músculos contraídos impelindo o movimento de minhas pernas. Não era ali, braços cruzados ante o engodo disfarçado com muita falação, que a paixão guardada na montanha de nervos na qual me confesso deveria descansar. Os políticos se servem do discurso para seduzir auditórios, visando o interesse individual ou de grupos restritos, mas as minhas tripas possuem ciência da própria fome. Se não encontro pasto, dou de ombros e vou-me embora, atrás de uma sombra para me amparar.

Como um Platão a quem não desagradasse os humores da carne, considero os perigos da retórica, mas não ignoro os rangidos silenciosos de meus intestinos.

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4 Comentários »

  1. Uma coisa bem constante em seus escritos é o quanto de coisa que se pode saber sobre você nas entrelinhas. Menino mimado sobre um berço filosófico, não entende que a vida real não está contida nos reclames calorosos dos discursos de Marx sobre o que deveria ser o mundo. Um mimo que é interessante de ser visto, mas vivido, jamais. Sei que é ele quem lhe faz pensar sobre como a roda da vida deveria girar, mas não é assim que acontece. Eu também era assim. E foi depois que eu consegui enxergar isso que a minha Síndrome do Super Homem começou a ser amenizada. Ignorância é força, já dizia Orwell. Alí sim sabia do que falava.

    Quem muito abaixa, o cu aparece, já dizia a minha avó. Sábia ela, que entendia até onde a curvatura do corpo deveria chegar. O problema é quando a mente está ocupada demais em possíveis realizações, do que no que está em frente às fuças. Virar a cara, correr e depois amaldiçoar o mundo no fundo de um copo de conhaque é cretino. Pra mim mostra que isso não é mais do que uma punheta intelectual, de um menino amamentado a leitinho com pêra e ovomaltino.

    Seus escritos me chocam, me causam admiração. Mas ao mesmo tempo que bato palmas pela sua destreza ao usar as palavras afiadas diante da garganta dos que usam um chicote ideológico, tenho pena da forma como tudo isso acaba. Embriagez do corpo. Fuga para a Babilônia.

    Vai ver o certo é fazer isso e a errada sou eu que me conformei. As vezes tenho uns espasmos, mas nada que me faça uma mártir. Minhas idéias e opiniões não são nada, diante do que eu poderia fazer e meu comodismo não deixa.

    Comentário por Débora Andrade — julho 19, 2008 @ 4:05 pm

  2. Ei, tipo.. eu gosto de você, viu? Hahahaha.
    Sério mesmo. Só tô “discordando”, como você mesmo pediu.

    :*

    Comentário por Débora Andrade — julho 19, 2008 @ 4:08 pm

  3. conheci seu blog por causa de uma matéria de um amigo

    achei bem interessante seus textos 🙂

    espero que não se importe, mas linkei seu blog no da nossa turma

    http://jornaltres.blogspot.com/

    Comentário por Larissa — julho 20, 2008 @ 6:26 am

  4. Então, Larissa. Eu vi o blog de vocês, e achei massa pra caralho! Quando estudei na UFS, sentia falta de um exercício que contemplasse esse tipo de linguagem. Fiquei feliz com a citação, por uma série de motivos. O mais importante deles é a oportunidade de dialogar com minha própria geração. Eu já deveria ter linkado o Jornal Três aqui, e agradecido à gentileza de Lucas, mas entre uma coisa e outra, acabei me passando. Reparo o erro, agora.

    Débora, mermão, pego você na esquina!

    Comentário por spleencharutos — julho 20, 2008 @ 3:34 pm


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