Spleen e charutos

julho 12, 2008

A frase mais feia do mundo

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 5:03 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Minha pretinha viajou, enterrou a saudade da mãe no inverno paulista. Agasalhos e cobertores no sul; conhaque e demônios alforriados aqui em casa. A gente abraça um ente querido na rodoviária e imagina que, até o seu retorno, tudo permanecerá suspenso – folha inimiga da queda, pendurada na árvore pela última gota de seiva, com medo da sujeira no piso da praça. Fiz promessas de higiene e comedimento, meias brancas quarando no varal e leite quente no café da manhã. Mas há dias de azul inclemente e outros em que nuvens carregadas nos fazem duvidar.

Não sou quem pretendia. Você sabe com quem está falando? Coloque um chicote em minhas mãos e descobrirá. Contrariando todas as minhas convicções, aquelas certezas famintas fecundadas no espírito com leituras e punhetas filosóficas, não passo de um reacionário ilustrado. Só conheço o humanismo nas palavras mofadas de Sartre e Camus. Além da doutrina encastelada em monstruosas torres de papel, reina em meu coração a mão pesada e arrogante do autoritarismo. Negros, putas e indigentes amontoados num porão escuro, à espera da execução.

Não sabia que era capaz disso, mas pronunciei seriamente a frase mais feia do mundo. Você sabe com quem está falando? Eu julgava que por me espremer dentro dos ônibus e me embebedar em botecos vagabundos, por ter o nome inserido no serviço de proteção ao crédito e no Serasa, poderia condenar os governantes que ordenam despejamentos e reintegrações de posse. Eu acreditava num abismo entre mim e aqueles que colocam a polícia em cima de trabalhadores-sem-terra. A verdade, no entanto, é que sou tão fascista quanto eles. O laço que me prende aos pequenos é frouxo e insignificante como a importância de minha conta bancária.

No dia em que pronunciei a frase mais feia do mundo, neguei a mim mesmo três vezes. Judas enforcado com o tecido da própria língua, me condeno a um desterro voluntário, na esperança de nunca mais me encontrar.

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4 Comentários »

  1. Bem que eu falei que você ainda tinha aquele pensamento de adolescente revolucionário, mas que a sensação de poder tudo muda.

    Não só você como todos nós que começamos com a visão de que a sociedade tem que ser igualitária, acabamos com o nítido pensamento de que “quando a farinha é pouca, o meu pirão vem primeiro”.

    Permita-me me citar:
    “Esses mesmos que defendem, são os que lá na frente estão sentados em posições sociais confortáveis, onde a única coisa que se preocupam é em como sustentar a família da melhor forma para que “marginais como estes” não interfiram em suas vidas.”

    E você, sabe com quem está falando agora, Rian?

    Comentário por Débora — julho 12, 2008 @ 5:14 am

  2. ‘A falta de esperança é o que seca a fonte da alegria.’

    [Débora Andrade]

    😉

    Xerim

    em tempo: como quase sempre muito bom o texto. também midentifico! fiquei assim há uns seis anos, vc bem sabe qdo, não preciso citar aqui. ‘tudo posso, sou autoridade’. o bom mesmo é que isso mudou um bocado e esse pensamento quase já não existe…. o desterro realmente valeu a pena. ainda bem que me reencontrei!

    Comentário por Rita Brasileiro — julho 12, 2008 @ 12:52 pm

  3. Mermão, fazer uma citação melhor do que o texto que a motivou é deselegante pra caralho! kkk Agora eu sei que a ignorância é uma dádiva! 😉

    Comentário por spleencharutos — julho 12, 2008 @ 12:53 pm

  4. Depois de ler os comentários acima…
    ecrevo em baixo.

    Que apesar de admitirmos com um sorriso amarelo… No fundo, sempre há um lamento porque as pessoas nunca saberão com quem estão falando.

    Comentário por Personne — agosto 3, 2008 @ 5:53 pm


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