Spleen e charutos

julho 4, 2008

Poeta bom, poeta morto

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 6:48 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Não preciso de meu nome na capa do jornal. Entre tantos que encaram o exercício da comunicação como um alimento para a própria vaidade, não enxergo qualquer vestígio de elegância em colocar o dedo na ferida coletiva, andar sempre desconfiado, quatro pedras preservadas ao alcance das mãos. Há os que distribuem afagos e bebem vinho barato em vernissages concorridas. Filho pródigo sem casa pra voltar, escrevo como um expatriado a quem não interessasse preservar a língua materna. Praguejo em todos os idiomas conhecidos, com a paixão de todos os gestos sujos, a infelicidade de ter sido jogado no mundo, recém-nascido no fundo do cesto abandonado na porta de estranhos.

Em meu texto, a sirene das viaturas, das ambulâncias, a goteira que toma o apartamento após três horas de chuva, deslizamentos e inundações. Por isso a bolsa escura abaixo de meus olhos. Me interessam asperezas, o travo da fruta colhida antes do tempo. Como nunca encontrei quem passasse a mão em minha cabeça, adotei o ceticismo como uma religião natural, tão espontânea quanto a inconveniência de um arroto em reunião de gente importante.

Só eu sei dos caminhos absurdos aos quais dois mil caracteres me obrigam. Só eu sei dos mergulhos escuros, das insônias mastigadas pra nada. Poesia é água mole, o leitor é pedra dura. Não existe outra explicação pra minha renúncia. Até o final do ano, me livro desse vício anacrônico, tão ingênuo e romântico que me provoca náuseas, e desisto de me bater com as palavras. Alex Nascimento, o filho da puta que, lecionando no Colégio Nobel, me incutiu o hábito da leitura, que tome conta dos discursos de nossos governantes.

Educado naquele ambiente besta, eu tinha tudo para me tornar um completo idiota. Mas o professor de redação tinha que me emprestar uns livros de Kafka! Por me obrigar assim tão cedo à lucidez, nunca o perdoarei. Ele teve juízo. Antes de cismar em publicar seus artigos aqui no Jornal do Dia, se dedicou ao magistério e construiu uma casa, talvez tenha plantado uma árvore, exerceu sua vocação de macho fazendo um filho. Eu não tenho direito a nada disso. Com o piso de jornalista que ganho por esses escritos, mal alimento minha fome.

Mas não tarda o momento de minha despedida, até nunca mais. Vou-me embora pra Pasárgada, algum boteco fedido numa viela esquisita. Lá, me tornarei amigo do rei.

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2 Comentários »

  1. “Como nunca encontrei quem passasse a mão em minha cabeça, adotei o ceticismo como uma religião natural, tão espontânea quanto a inconveniência de um arroto em reunião de gente importante.”

    midentifico.

    porém, o que me difere de você é o fato d’eu saber que uma festa pode ser ruim como for, mas o que a faz boa é a minha vontade de me divertir. eu posso até um dia ir-me embora pra pasárgada, mas sei que vou voltar de lá. e junto com o rei.

    :*

    Comentário por Débora — julho 4, 2008 @ 9:33 pm

  2. Bendito professor! Santo juízo!

    Comentário por Rita Brasileiro — julho 12, 2008 @ 12:44 pm


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