Spleen e charutos

junho 28, 2008

Sem cavalo preto que fuja a galope

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 2:12 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Nem todos os vestígios se resignam com o passado. Além da remela nos olhos, pegadas de pesadelos libertados durante um cochilo do juízo, existe a fatalidade dos caminhos corridos no escuro de outra noite. É como se eu fosse aquele preto de vacilo na esquina da Rua Propriá. Sem carta de alforria que me valesse o direito de ficar com a cara pra cima, empatando o passeio deserto e público com a inconveniência de meus andrajos, afundo debaixo de socos na mala da viatura 119. Como única prova criminosa, o exercício da fome. Uma galinha roubada no quintal de minha infância para alimentar a tragédia festejada com o chocalho de meus ossos.

Não adianta apressar o passo, olhos pregados no ponto invisível que limita o objetivo. Elegemos o percurso saciado pela sede dos calçados ainda na ignorância das fraldas. Eu sou tragado pelo asfalto, a cobrança de um desejo esquecido no mesmo instante da satisfação, enquanto o ex-governador João Alves Filho vomita cinco minutos de despautérios – a sandice de um homem justificando a crença dos anunciantes que financiam a televisão.

Não se trata aqui de render vivas à administração Marcelo Déda. Embora a imprensa sergipana esteja ocupada demais com as coligações que deverão desenhar o modorrento pleito que se avizinha, as contradições reveladas pelo discurso petista continuam reclamando atenção. Isso não significa, contudo, que a história recente da política sergipana possa ser ignorada. Se ainda existem incongruências na gestão da coisa pública, isso se deve ao legado autoritário e personalista herdado e, infelizmente, acalentado pelos atuais administradores.

Os berros infantis do ex-governador, seus delírios de perseguição e promessas veladas de vingança são o passado batendo à nossa porta. Prisioneiros de nossas escolhas, buscamos inutilmente algum cavalo preto que fuja a galope.

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