Spleen e charutos

junho 21, 2008

Meu tempo é hoje

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 11:21 am

O artigo reproduzido abaixo foi publicado originalmente no ano passado. Na ocasião, alguns leitores identificaram um pouco de intransigência e muita impaciência em minhas palavras. Mais de um ano depois, no entanto, o sentimento escarrado com tanta sofreguidão permanece inalterado (com a óbvia e pontual ressalva em relação à situação do deputado citado) e, mais do que isso, vem sendo constantemente justificado pela administração petista. Quando presente e passado se encontram de tal maneira, é sinal de que a água estagnada no fundo do tanque pode começar a gerar frutos.

Meu tempo é hoje

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Escrever é como usar a lâmina da unha para rasgar a superfície irritada da pele. Depois vêm a inflamação, o corrimento e o álcool, de modo que não há como conceber que alguém deite seus dedos sobre o teclado conjugando sinceridade e comedimento. Uma metralhadora cheia de mágoas, quatro pedras de rancor, o verbo hostil dos vencidos atendem às urgências do cotidiano tão prontamente quanto os imperativos das entranhas. A merda escorregando, macia, pelo labirinto das tripas…

Despejo o áspero sobre o papel porque minha hora é agora. A justiça da paciência reclamada não suprime a responsabilidade pela morosidade no cumprimento das promessas vomitadas em campanha. Enquanto a revolução desfruta, tremulante, as carícias do vento, lá no alto, bandeira apenas, a poeira se acumula inerte aos pés do mastro. Arrasto, portanto, a fadiga inevitável para o escuro de outra ocasião. Agora é esculhambar o coreto, orientar o carnaval.

Meu tempo é hoje. Tempo de peste. Tempo de dejetos boiando no Tramandaí e de trincheiras abertas para o embate de 2008. Tempo de deputado surpreendido com o porta-malas cheio de dinheiro, em dia de eleição, exercer o mandato tranqüilamente, uma virgem que adormece sob os olhos vigilantes do pai. Eu não desejava o vermelho do sangue, nódoa heróica a sujar a satisfação nobre de tantas aspirações, mas também não esperava a sonolência acomodada desses dias.

As meninas podem ficar despreocupadas de suas saias. O vento impetuoso e contínuo anunciando pelos emissários do porvir não chegou ainda a brisa. Há o argumento sensato de que não houve tempo suficiente para que o passo calmo da política transformasse a feição macilenta de nossas instituições e ganhassem a cara do novo, mas não foi essa imagem ponderada, ajustada ao calendário carcomido dos coronéis, que me foi vendida no último outubro. Comprei à vista e quero um tempo novo. Quero agora!

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