Spleen e charutos

junho 14, 2008

Tateando o alto

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:37 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Sou incapaz de acolher com serenidade o ruído de uma sirene. Duzentos gramas de fuga no fundo do bolso, erva seca embebida em devaneio, explicam parte da aflição. Mas os tropeços malocados no juízo não abraçam tudo. Se me pesam, além disso, os tributos usualmente cobrados a quem insiste no barulho das cidades – correntes, cadeados, pesadelos que invadem o apartamento pela janela do terceiro andar –, a carga maior nessa mochila abarrotada de medo cai humilhada pelo coturno estúpido da autoridade, um macaco fardado expiando a própria frustração.

Triste é perceber que ainda respiramos o papoco do gás lacrimogêneo. As oligarquias escorraçadas para as páginas infelizes da história, discursos nos palanques, enquanto o preto, o pobre e toda a sorte de desvalidos permanecem com as mãos erguidas, tateando o alto, entre a prece e o bacolejo, aguardando o alento prometido pelas escrituras sagradas, barras coloridas e números impassíveis nas planilhas do governo.

Um fodido como eu não possui razão para ceder à nostalgia. Não preciso de jornais antigos para lembrar da brutalidade praticada em outros tempos. Surpreende, no entanto, o número de oportunidades perdidas pela administração Marcelo Déda para negar o legado autoritário e personalista herdado de seu antecessor.

Se o ex-governador João Alves Filho batizou a ponte Aracaju/Barra com o nome do próprio pai, Déda fez o mesmo com o viaduto do DIA. Se João Alves considerava legítimo o comportamento bárbaro da Polícia Militar nos embates com os Trabalhadores Rurais Sem Terra, o governo Déda acaba de divulgar nota respaldando a ação truculenta dessa mesma força policial na recente desocupação de uma propriedade do Estado. Não me ocorre agora o nome de nenhum deputado da base governista de outrora que tenha se batido em duelo armado com algum adversário, mas isso não conta pontos a favor do líder petista na Assembléia Legislativa. E o povo rezando…

Quem me dera as mãos pro céu. Um pouco de fé e não machucaria tanto a verdade em meus olhos.

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2 Comentários »

  1. “Talvez eu seja mais uma conformista, mas dentro deste conformismo, terei três opções: virar uma sem-teto, virar uma punheteira intelectual ou virar “um deles”. Estou em dúvida pela segunda e terceira opções. “

    Comentário por Débora — junho 14, 2008 @ 3:46 pm

  2. Eu fico com a punheta

    Comentário por spleencharutos — junho 14, 2008 @ 8:20 pm


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