Spleen e charutos

maio 30, 2008

Viaduto João Ninguém

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 10:13 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Meu pai nunca vai emprestar o nome a uma ponte. Vivo ou morto, anônimo e resignado, o heroísmo de sua existência acumula em pilhas monstruosas de renúncias e privações. Jamais o aplauso da história, a pompa e a circunstância das cerimônias de inauguração. O único monumento erguido em homenagem a meu velho é mudo como uma rocha, rosário íntimo desfiado em silêncio pela memória dos pecadores.

Para os moradores de seu prédio, meu pai não passa de um vizinho barulhento. A mim, no entanto, ele ensinou tudo. O usufruto do instante e o remorso da alvorada. Se equilibrando entre afagos de botequim, o macho arrependido no qual se transformava tão logo amanhecia acabou me condenando ao sacerdócio ingrato da palavra. Eu observava a dedicatória rabiscada no LP de Roberto Carlos, o perdão apaixonado de minha mãe, e morria de inveja. O resultado não poderia ser diferente. Crônicas excomungadas mendigando dois tostões de atenção.

Outro dia, a Promotoria de Justiça de Estância, especializada na defesa do patrimônio público, expediu recomendação ao poder municipal no sentido de que não sejam utilizados nomes de pessoas vivas em bens públicos do município, resguardando os princípios da impessoalidade, da isonomia e da moralidade previstos pela Constituição Federal. Recebi a notícia com satisfação, mas no fundo ela não me diz muita coisa. Meu pai não fez nada de sua vida. Nada que levasse alguém a lhe considerar no momento de batizar uma viela. Em quatro filhos ingratos, educados com toda sorte de sacrifícios, seu empreendimento definitivo.

De olhos fechados eu governo estados, derrubo oligarquias, comando revoluções. Um pequeno gesto de minha vontade, um espasmo inadvertido, e obras descomunais brotam do asfalto com a naturalidade da hera que desafia o progresso nos muros do subúrbio. Seu Luiz Antônio no centro de tudo. Discursos e uma faixa vermelha debaixo de seus pés.

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2 Comentários »

  1. Por que você sempre escreve os textos que EU queria ter escrito eihn?

    (Sim, isso está no topo da minha lista de elogios. Fo-da).

    Comentário por outra carol — junho 1, 2008 @ 2:56 pm

  2. Por que você sempre escreve os textos que EU queria ter escrito eihn?

    (Sim, isso está no topo da minha lista de elogios. Fo-da). [2]

    Comentário por Rita Brasileiro — junho 25, 2008 @ 2:59 pm


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