Spleen e charutos

maio 17, 2008

Quando eu ficar velho, uma cidade estrangeira

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:55 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Às vezes me imagino aos sessenta e quatro anos, um pedaço de carne desanimado, orelhas enormes ruminando os rangidos do mundo. Sinto vontade de chorar. A vida toda lutando contra a natureza, unhas e pentelhos aparados diariamente, pra acabar encarcerado em terra estrangeira! Envelhecer é sorrateiro e surdo como o nascimento de uma favela. Meia dúzia de deserdados ocupam um palmo de chão agreste, perdido no nada, até que uma calamidade qualquer obriga homens poderosos a reconhecer os limites de suas responsabilidades. Reumatismos, dores nos ossos, inflamações…

Antes do colégio, o universo cabia em meu quintal. Ali, o dia inteiro de cueca, maltratando insetos aborrecidos e as flores de minha mãe, era bonito e fácil. O diabo é que nossos cabelos, nossos desejos crescem o tempo inteiro, sem descanso. Os meus sentiam tanta fome que me negaram o conforto da família, me obrigando aos primeiros passos longe de casa, divorciado de minha infância. Um cafofo na zona norte, o amor ligeiro das putas, e o nome incluído no Serviço de Proteção ao Crédito. Em troca, a cidade descoberta, suas delícias e temores.

O receio é que minha cidade se transforme em vestígio, uma fotografia amarelada no esquecimento da parede. As ruas do centro, estreitas desde sempre, ficam cada dia mais nervosas. Os carros que se multiplicam, as árvores que se dobram, os transeuntes arqueados, declinantes. Isso tudo mais a merda, despejada in natura no leito dos rios, não pode dar em boa coisa. É só um retrato, mas como dói!

Quando eu tiver sessenta e quatro, Aracaju não será mais a mesma. Na feição decadente dos prédios mais antigos, um esforço inútil para aceitar a passagem do tempo, o resultado de minhas escolhas, as conseqüências de minhas ações. Calvo e barrigudo, espero descer a Rua Propriá com uma ponta de orgulho. Debaixo dos meus pés, o produto da maior empresa do mundo. Asfalto, sonho e cerca de seiscentos mil corações.

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2 Comentários »

  1. Rian.. meio que td a sua história é relacionada com putas e cachaças ao longo de sua existência.. sugiro que você, antes de ficar velhinho mesmo.. escreva um texto a la gabriel garcia marquez.. “memorias de minhas putas alegres”.

    :*

    Comentário por Débora — maio 17, 2008 @ 4:15 am

  2. É, Calango! Só estou aqui há oito anos e Aracaju já não é mais a mesma!!

    Comentário por Rita — maio 18, 2008 @ 9:29 pm


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