Spleen e charutos

maio 3, 2008

Clarividente

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 4:07 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

A epidemia lá fora, urubu voando raso como uma guilhotina que mergulha, e eu aqui, lançando a vontade no fundo do vaso, expulsando na merda o arbítrio que me anima. É quase metafísico. O absurdo decora a primeira página dos jornais, a peste derruba anônimos no acaso cego das esquinas, enquanto o cronista transcende o holocausto que varre a cidade e se concentra em sua diarréia de três dias. Setenta e duas horas evacuando o ânimo pelas entranhas. Um exorcismo íntimo, sofrido como uma prece, reduzindo o universo ao atoleiro fedorento que se esgota pelos intestinos. É sempre assim, eu e o outro. O outro e eu. O Estado e o escriba no meio do mundo, examinando piedosamente as vísceras expelidas pelo esforço do próprio cu.

Parece mentira. Quando algo vai mal na corte, minhas tripas adivinham. No último governo João Alves Filho, por exemplo, fui atacado por uma caganeira dos diabos. Amordaçados pela mão bruta do autoritarismo, os sindicatos não se mobilizavam como agora; o mosquito da dengue não aparecia nos noticiários com a mesma constância, mas uma revolução interior me obrigava a suspeitar de muita sujeira embaixo do tapete. Cólicas, dores na barriga e, sobretudo, bosta, muita bosta! Anos mais tarde, uma eleição e algumas auditorias depois, minhas lombrigas envaidecidas, cobrando o reconhecimento de tanta sabedoria.

A natureza insólita desse sentido extraordinário certamente ofenderá a civilidade, os modos de muita gente. Realmente, não é de bom tom ceder publicamente aos humores do organismo, mesmo em nome da clarividência. Se até as ciganas sujas que percorrem as linhas da mão errando as estradas do futuro se apresentam com alguma educação, não serei eu, um bacharel em comunicação social, a resvalar para a vala comum da grosseria.

O leitor fique tranqüilo, portanto. Tenho convicção de que, na medida do possível, os sindicalistas rebelados serão atendidos, as endemias controladas, os pleitos da sociedade serão respondidos, de modo que o presente mal estar logo será acomodado na cesta escura do esquecimento. Caso isso não ocorra, entretanto, o autor destas mal traçadas pedirá desculpas aos presentes. Em tempo de peste, a porcaria não distingue entre rato e gente.

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1 Comentário »

  1. Quero nem saber quando os tempos do apocalipse chegar, como é que vai ficar o estado do seu rabo bacharel em comunicação.

    Você falou do fato de ter um intestino clarividente… sei lá, li uma história uma vez, de um homem que via através dos desenhos que a bosta dele fazia. Nestes tempos de tanta desgraça, porque não se aproveitar da própria merda?

    :*

    Comentário por Débora — maio 3, 2008 @ 2:50 pm


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