Spleen e charutos

abril 26, 2008

Eu, grevista

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:29 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Minha pena largada, poeira e entulhos no fundo da gaveta, não incomoda ninguém. Fosse eu um poeta de verdade, Amaral Cavalcante carregado em procissão; líder comunitário à frente de saques e invasões; estudante acampado no prédio da reitoria, e tudo seria diferente. A paralisia de meus nervos cansados de tanta prosa, tanto verbo cuspido à toa, causaria comoção nos homens da cidade, transtornos na ordem pública. Alguém observaria minha renúncia, a face corroída pelo assombro, e, milagrosamente, hemorragias desatadas nos corredores dos hospitais, quilômetros de engarrafamentos entupindo estradas e avenidas. O Estado consternado, aguardando atônito o pulsar de minha veia exaurida.

Uma greve não passa de idéia materializada. A fadiga acumulada durante décadas de insatisfação escarrada sem aviso prévio no meio da rua. Perdas salariais, reivindicações históricas, faixas e panfletos inflamando a revolução… Tudo isso resumido no rosto raivoso de um sindicalista suado, enfastiado com as promessas sempre renovadas de negociação.

A despeito da natureza política inerente a qualquer espécie de mobilização coletiva, e apesar da acusação de intransigência realizada pelo Governo do Estado ao mencionar as categorias em greve, não se pode negar nunca, a ninguém, o direito sagrado de levantar o dedo médio após o desconforto de uma agressão. O perdão é uma invenção do cristianismo, e a religião, a história prova, nunca foi uma companhia aconselhável para a política.

Quando pisam no meu calo, eu grito um palavrão. Mando tudo ao diabo, esconjuro o aborrecimento condenando o abestalhado à forca cravada bem no meio de seu rabo. Foda-se todo mundo! Vão todos tomar no cu! Não é muito educado de minha parte, não foi assim que mamãe ensinou, mas esse mantra recheado de imprecações, doenças e secreções incriminando um transeunte distraído, lava minha alma como uma missa encomendada. Praguejando à vontade, eu sigo andando. Insolência e arrogância abrindo caminhos obstruídos pela má vontade e indolência dos homens de ação.

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