Spleen e charutos

abril 19, 2008

Na vertigem do cinema

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 10:51 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

A primeira foi Xuxa. Menino ainda, antes de ver o Cine Palace assaltado pelo dinheiro santo dos templos evangélicos, eu me aboletava em uma de suas poltronas e esperava a sala escurecer. Duas horas pra viver meu amor recolhido, estranho amor encarnado em feixes de luz, cheiro de pipoca e algazarra de moleques em férias. Ninguém desconfiava, mas, durante a projeção, a rainha da lua de cristal seria minha. Ela inteira, botas extravagantes e malhas coloridas. Depois era se conformar com o alvoroço dos transeuntes no calçadão.

Muitas podem ser as razões que levam um homem a se apaixonar pelo cinema. A mulher, no entanto, é a mais bonita delas. Sônia Braga catando uma pipa no telhado, o rabo atrevido desafiando alturas; Brigitte Bardot, Et Dieu Créa la Femme, lábios carnudos e cheios de leviandade; Mônica Bellucci na pele de Malena, a cidade toda açoitando a dignidade de minha amante. Três mulheres, entre tantas, despertando desejos sôfregos enquanto ditam comportamentos e conduzem o cavalo desgovernado da civilização.

Todo ano eu comemoro a realização do Curta-SE, e motivos não faltam para tanto. Além de fomentar nossa produção audiovisual, incitando o realizador local a registrar suas impressões e paisagens, o Festival inseriu Sergipe na rota do cinema nacional. Isso é mais do que qualquer política cultural do Estado já conseguiu. Sua maior virtude, entretanto, reside no culto aos fantasmas que desenham o mundo na tela. O universo dentro de um retângulo branco.

Na vertigem do cinema, uma prova de que a vida não é suficiente. Além do pão e do circo cotidiano, tudo o que você vê por aí, o ideal e os ventos que apontam o futuro. Mulheres lindas guiando a humanidade para longe, ressuscitando homens e nações enterradas no conforto do próprio umbigo.

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1 Comentário »

  1. Mermão, falar em cinema, vi Persépolis. Filme muito bom, animação perfeita demais. Mas é aquela coisa… quem lê o livro tende a ficar com um ranço depois que vê uma adaptação.

    Agora venha cá.. desde menino vc era sapeca assim que já reparava no colan de Xuxa? Cê não teve inocência não? Cê já foi criança algum dia?

    O.o

    Comentário por Débora — abril 20, 2008 @ 7:28 am


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