Spleen e charutos

abril 12, 2008

Mesmo que o pão seja caro

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:23 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O convite invade a sala como uma pedrada, vidros estilhaçados e um pedaço de papel envolvendo a natureza impassível da rocha. Farinha com cachaça, quem quer? Eu já havia selecionado as sementes, afastado os talos que poderiam comprometer o usufruto de minha madrugada. Os sentidos anestesiados, Billie Holiday sussurrando safadezas ao pé de meu ouvido… E o verão foi novamente adiado pra mais tarde. Somente depois tomei conhecimento da razão que levou o erudito da língua presa a abdicar de seus hábitos afetados – vinhos chilenos e versos franceses, apesar dos vencimentos minguados –, obrigado pela papa grossa da necessidade. Funcionário da Fundação Aperipê, meu amigo não recebe salário há dois meses!

E lá vai o coitado! De casa pro trabalho, do trabalho pra casa, a barriga vazia e vários quilômetros pra vencer com as pernas. No tempo da Universidade era diferente, a cabeça estava feita. A gente sentava para almoçar na Didática V, um boteco mal disfarçado em restaurante, e, depois de dúzias de cervejas, observávamos o Corujão, último ônibus a trafegar pelo Rosa Elze, abandonar o terminal deixando um rastro de preocupação e saudade. A gente sentia que o pão estava caro, a liberdade pequena, mas mesmo àquela hora da noite, sem dinheiro e sem transporte, o cuzinho cortando, a vida valia a pena.

Sem querer meter o bedelho no ninho de vespas que é a Aperipê, uma instituição vitimada há décadas por arbitrariedades e equívocos administrativos, muito longe ainda do ideal de uma emissora efetivamente pública, pautada pelos reais interesses da sociedade, admito que a maior parte dos profissionais de suas emissoras de rádio e televisão levam o trabalho a sério. Resta, portanto, que o Estado vá além do discurso e ofereça as condições necessárias para que esses profissionais exerçam suas atividades sem passar por constrangimentos desnecessários. Só existe um nome para trabalho sem remuneração: exploração!

Felizmente, para o erudito da língua presa, ainda que o pão esteja caro, existe o alento dos amigos. Segure as pontas, vagabundo. A gente está chegando com um pirão!

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