Spleen e charutos

abril 5, 2008

Com moleques e livros

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 10:44 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Os muros do colégio, tão baixos, nunca foram obstáculo para minha delinqüência. Cabelos desgrenhados, cigarros no corredor, Kafka e Baudelaire durante a aula de matemática. O professor desenhava equações misteriosas, absorto como quem trouxesse uma grande responsabilidade sobre as costas, mas o que me perturbava mesmo eram aquelas palavras prenhes de subjetividade, gestantes desesperadas para preservar um delito qualquer nos intestinos, refúgio de criminosos amigos, companheiros de dolo e de avarezas.

Cordas, correntes, nada podem contra a erosão silenciosa, a escavação subterrânea que condena o terreno árido da educação institucionalizada. A corrupção que as famílias temem nos bares, nas esquinas; o receio que obriga mães diligentes a investigar bolsos e hálitos insones, entra em casa pela porta da frente. Entre as páginas dos livros abandonados pelo quarto, há mais do que resquícios do barato desfrutado na frieza das madrugadas. Desejos desenfreados encontram pasto e convidam para orgias palacianas nas entrelinhas de um volume in quarto.

Não foram os Stones os responsáveis pela minha degenerescência. É que depois de vencer, clandestino, os limites do Colégio Nobel – hoje uma ruína na Rua Itabaiana, uma ferida encharcada de nostalgia que machuca fundo o meu coração –, eu corria para as dependências da Epifânio Dória. Ali, enfeitiçado pelo silêncio religioso estagnado entre as prateleiras, respirando o perfume acre que embriagava tantos fantasmas impregnados de mofo, Alan Poe e Hemingway ansiosos por um punhado de fumo, abandonei a pretensão de me tornar um homem e abracei definitivamente minha vocação de moleque.

Na semana em que se comemoram os 124 anos de nascimento do patrono da maior Biblioteca Pública da cidade, Luiz Antonio Barreto lamenta o desprezo que os homens de governo lhe dispensam, e faz muito bem. São esses santuários abarrotados de papel os únicos capazes de erguer crianças e imperadores com a mesma facilidade. Infelizmente, Aracaju possui uma infinidade de homens, mas faz questão de lhes negar os livros.

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