Spleen e charutos

março 29, 2008

Uma verdade inconveniente

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 2:47 am

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

A cidade não para. Doze, quinze, vinte e cinco andares de tijolos enfileirados. Pro alto e sempre! Somos gigantes. Construímos pontes, viadutos, rios imundos. Asfalto e petróleo entopem nossos corações. Sob o capricho de nossa vontade, metais e intempéries dobrados como as fantasias de uma criança. Gigantes, sim. Nosso calçado gasto, atrito entre aflições individuais e a determinação citadina, pisa diariamente o imprevisto absurdo do acaso. Observamos os ciclos da natureza, estudamos reações químicas, deciframos as leis da física e triunfamos, finalmente. Definitivamente, gigantes. Por isso o espanto. Como admitir, entronados no chumbo espesso de tanta engenharia, o nosso império de fórmulas e equações vencido por um mosquito insignificante? Gigantes…

Oceanos nos separam das paragens famintas onde a necessidade obriga homens a se bater com animais. Tudo muito remoto, muito distante. Nos livros, nos filmes baratos de aventuras, é até comovente. Um rosto infantil ressequido pela poeira e pela porcaria namora a câmera. Dá pra imaginar as feridas abertas em sua carne. Simpatia e uma sombra de felicidade, apesar dos micróbios e das doenças. Lá é lugar de morrer aos milhares. Aqui vivem os gigantes.

Como explicar, portanto, inúmeros dos nossos (desde o início do ano, 1348 casos foram notificados em Sergipe) arremessados na cova rasa da convalescença? Uns apenas adoecem, outros realizam a grande viagem. Somente agora, no entanto, depois que o surto se estabeleceu confortavelmente, a Secretaria Municipal de Saúde fala em realizar campanhas, colocar agentes de saúde nas ruas. É como se a proliferação da dengue nesse período fosse alguma novidade, um acontecimento extraordinário.

Nessa terra de gigantes, o Aedes Aegypti merece a repulsa de todos, e a compaixão também. Não é fácil admitir, apesar de tanto concreto, um inseto africano, herança bastarda dos navios negreiros, nos unindo a povos famélicos e desprotegidos de tudo. A inconveniente verdade que nos esforçamos para ignorar erguendo pilares ornamentados, embuste de civilização e de progresso, é que nossa obsessão pelo novo é apenas o produto traumatizado do pretérito. E ele nem está tão afastado assim.

Anúncios

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: